Clarín – Buenos Aires

Entrevista com o filósofo espanhol Fernando Savater.

Clarin

Fonte: Clarín

Lúcido e polêmico como sempre, não é difícil imaginar por trás da voz que fala pelo telefone os chamativos óculos de Fernando Savater movendo-se agitadamente sobre seu nariz. É que assim como os temas do mundo não lhe são indiferentes, este grande pensador espanhol não permanece indiferente às perguntas.

Acaba de publicar o livro “La aventura del pensamiento” [A aventura do pensamento, ainda sem tradução para o português], onde explica com simplicidade e clareza a vida e obra dos principais pensadores que foram fundamentais para estruturar a moral e a ética do Ocidente. Platão, Aristóteles, Kant, Hegel, Marx, Sartre, Nietzsche, Adorno, Foucault, Spinoza, Descartes, Locke e Unamuno, entre outros. “Esta obra tem como missão abrir o apetite”, esclarece no começo desta entrevista com o Clarín. “Não é um ponto de chegada, mas um ponto de partida, que quer despertar a curiosidade dos leitores e fazer com que desejem buscar a obra destes autores, investigar o seu legado”.

- No livro, cita Sartre quando diz “o inferno são os outros” e a Hobbes com aquela frase de que o homem é o lobo do homem. É o medo do outro ou o olhar do outro que está no centro da ordem social?

- Esse medo é uma das bases. Nós, seres humanos, necessitamos uns dos outros porque somos seres simbólicos, que falamos, e um ser que maneja símbolos nunca pode viver só. Mas os demais também são livres, têm seus próprios desejos e, portanto, enfrentar-se a eles é perigoso. Creio, então, que há um medo negativo e outro medo que é são e tem a ver com saber que se um desrespeita os demais, este, mais cedo ou mais tarde, se voltará contra alguém.

- Pareceria que, em resposta a este confronto, os homens tendem a fecharem-se cada vez mais sobre si mesmos e em sua própria identidade social, fazendo renascer nacionalismos, fechando fronteiras, iniciando lutas étnicas ou religiosas.

- Eu creio que aqui, mais que o medo da diferença, o que há é um problema econômico, social. Em épocas em que se considera que o bolo tem diminuído muito e que não haverá porções para todos, as pessoas não querem convidados à mesa. Os demais são vistos como pessoas que podem nos tirar algo, sobretudo os pobres.

- Os excluídos dos quais falava Foucault, encarcerados ou marginalizados da sociedade, “os outros”, são hoje os pobres?

- Sem dúvida. A única raça perseguida no mundo é a raça dos pobres. Ninguém vê a cor de pele do sultão de Brunei, mas, em contrapartida, o pobre pertence a uma raça perseguida e será ainda mais perseguido se, além disso, tiver traços étnicos diferentes.

- É paradoxal que para manter o pobre do lado de fora, o que se propõe seja a própria prisão.

- Os países mais ricos crêem que podem fazer fortalezas e ficar lá dentro com o que necessitam, com pobres suficientes para que trabalhem para eles, mas que não incomodem. Mas este é um conceito equivocado, porque o mundo chegou a tal nível de interconexão que ou nos salvamos todos, ou nos perdemos todos. Hoje, ser cosmopolita e ser solidário é ser realista. Crer que é possível que alguns pequenos grupos se salvem enquanto os outros perecem devorados por um mar de necessidades é um erro enorme. Ninguém se salva nem afunda sozinho.

- Essa é a lição da atual crise dos Estados Unidos?

- Sim. E nós, espanhóis, temos isso muito claro hoje. Mas não somente nos afetará o que acontecer nos países ricos, também nos afetam a África e a América Latina. O mundo tem ficado menor. Hoje viajamos de uma ponta à outra em questão de horas, as notícias chegam imediatamente, e nem falemos da facilidade com que se movem os capitais e os investimentos. Então, supor que vamos criar guetos e salvar-nos uns dos outros é absurdo. O que deve ser feito é com que essa comunicação universal funcione a favor da felicidade e do bem-estar de todos.

- A sociedade feliz é a mais tolerante com a diferença ou a mais igualitária?

- As sociedades mais tolerantes são as que dão importância ao que se tem em comum. O mais importante são nossas semelhanças, não nossas diferenças. Agora, há uma superstição que fala da riqueza de nossas diferenças. Entretanto, a verdadeira riqueza não reside em nossas diferenças, mas em nossas semelhanças. Quando estamos convencidos da importância do que compartilhamos, toleramos também a diferença, esse gosto pelo diferente, pela ideologia, pelos tipos de comida, pelo erotismo. O importante são os direitos humanos. Dentro disso está a possibilidade de que logo cada um viva sua humanidade de maneira distinta, com possibilidades semelhantes.

- O legado de Locke, sua idéia de tolerância e direitos do homem persiste para além dos discursos?

- Os direitos sociais e humanos são muito mais respeitados agora do que em qualquer outra época…

- Mas não parece que nos encaminhamos para uma sociedade mais justa…

- …, ainda que nós consideremos que não é o suficiente, precisamente porque sabemos que existem e queremos que se cumpram melhor. Hoje, por exemplo, há um elevado número de pessoas no mundo, muito maior que o de outras épocas, que sabe o que é a previdência social, sabe o que lhe cabe e que pode pedi-lo. Muitas vezes não o obtém, e muitas pessoas do mundo nem têm a quem solicitá-lo, mas isto era pior em outras épocas, sem dúvida. A contradição de nosso mundo é que hoje sim teríamos meios para resolver alguns dos problemas que deixam marginalizados do sistema uma grande parcela da população. Pessoas que podem estar longe, ou que podemos tratar de manter longe, mas que estão perto através da televisão e de outros meios de comunicação.

- Comove da mesma maneira vê-los através dos meios de comunicação? Não vimos os cadáveres do 11/9 ou do furacão Katrina como vimos os corpos do tsunami da Indonésia?

- É verdade que, todavia, hoje existem mortos de primeira categoria e mortos de segunda categoria, mas também é certo que quando foram os da Indonésia o mundo todo se sentiu comovido. Porém, há guerras terríveis na África que passam completamente despercebidas. Isso já depende de políticas informativas de cada um. Agora mesmo, em plena campanha presidencial nos Estados Unidos, o tema do furacão Gustav teve repercussões eleitorais e se transmitiu a notícia por esta ótica, para além da sensibilidade que podem ou não ter os candidatos. Para além de Obama ou McCain.

- Crê que o fato de que Barack Obama possa chegar à presidência dos Estados Unidos, fala de uma superação do racismo nesse país?

- Não sei se o racismo está superado, mas sim, houve uma mudança radical. Voltemos ao que disse antes: não importa a cor de pele, importa que não sejam pobres. Para uma pessoa de minha geração o fato fundamental é que Obama é negro, mas creio que para os mais jovens não, eles já estão acostumados a uma educação integrada. Esta é uma conquista do presidente Johnson, que levou a integração às escolas estadunidenses há 40 anos. Nesse país existem problemas econômicos e culturais, mas creio que o problema racial, como expôs Martin Luther King quando eu tinha 20 anos, já não existe.

- Além das transformações históricas que têm a ver com o marxismo, qual você acha que foi a maior influência do materialismo de Marx no pensamento do homem comum?

- Os grandes pensadores influenciam através de seus seguidores. Não são muitos os que leram realmente “O Capital”, mas são muitos os que ouviram falar os marxistas de boteco, então a idéia se rebaixa um pouco. Creio que a noção de Marx de que os grandes movimentos históricos, ainda que tenham um revestimento retórico de grandes idéias religiosas e humanistas, se movem por interesses econômicos, e que estes interesses econômicos são mais determinantes na história que outros discursos, é algo que as pessoas têm aceitado, inclusive mais do que devem. Seguindo-a, se chega a simplificar ao extremo, e na busca do interesse econômico são esquecidas as outras questões, como os interesses ideológicos e étnicos, que também têm importância.

- Você também disse que a religião é “muito mais que o ópio do povo”, citando Marx.

- Sim, é a cocaína do povo, uma droga pesada que os coloca em atividade. Marx sustentou que a religião adormecia os impulsos revolucionários do povo, e o que estamos vivendo agora não é um entorpecente, como pensava Marx, senão, muitas vezes um estimulante terrível da violência ou do terrorismo.

- Por que acredita que desde o fim do século passado a questão religiosa recuperou um protagonismo?

- A decadência da política tem trazido como conseqüência o ressurgimento da questão religiosa. Enquanto a política ocupava um lugar central na vida, a religião estava relegada. Mas no momento em que a política começou a passar a um segundo plano e a ser considerada uma questão meramente econômica, a religião passou a ocupar este lugar. Nós, seres humanos, necessitamos de compensações simbólicas da nossa mortalidade e da nossa própria vida. As igrejas são piores do que as religiões porque são instituições de poder, e muitas vezes afetam as liberdades individuais.

- Não é contraditório que tenha dito que se deve tolerar o véu muçulmano nas escolas francesas?

- Eu, o que creio é que não se deve responder a obrigatoriedade de usar o véu com a obrigatoriedade de tirar o véu. Acredito que é importante defender o espaço laico da república e a educação laica que defendeu a França, mas sem converter isso numa outra Inquisição. Minha mãe colocava um véu para ir à igreja e não acontecia nada. Não convertamos algo que pode ser um costume em algo digno de ser perseguido, salvo se realmente vejamos que é uma humilhação.

Socorro Estrada

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