Le Nouvel Observateur
Graças a negociações com os colombianos, a ‘Ndrangheta prospera. Familiar e sangrenta, ela se infiltrou na Europa e não para de crescer.
A Cosa Nostra e sua prima longínqua, a ‘Ndrangheta, estão se preparando para agir. A Sicília e a Calábria, seus respectivos bastiões, serão brevemente ligadas por uma das maiores pontes suspensas do mundo. Uma imensa obra de arte que correrá por 3,3 km sobre o Estreito de Merssina. As duas máfias estão menos preocupadas com as proezas tecnológicas do que com a ponte de ouro que representa este investimento de 6 bilhões de Euros. Terceirizações, expropriações, desvios diversos e variados… Esta passarela jogada entre as duas famosas armadilhas de Caríbdis e Cila deveria permitir mensurar a potência de dois monstros da mitologia moderna. E, neste exercício, não é certo que seja a ‘Ndrangheta quem perca.
Nós a víamos como uma organização folclórica, selvagem e limitada a sua terra natal, especializada em seqüestros dignos de outra época. No dia 15 de agosto de 2007, ela ingressou no grupo dos grandes do crime organizado com um massacre em Duisburgo, na Alemanha. Seis mortes, todos jovens mafiosi emigrados na República Federal [Alemã] e abatidos a tiros de metralhadora em nome de uma faida, uma antiga vingança entre famílias calabresas. Neste dia, o mundo descobriu uma máfia ultramoderna, que havia investido em redes de pizzarias, que possuía um verdadeiro capital imobiliário, sobretudo nos países do Leste [Europeu], e lavava o dinheiro sujo em grande escala. Desde então, o chefe do principal clã familiar, Guiseppe Nirta, foi detido. Outras detenções seguiram: financeiros, armeiros… 52 prisões ao todo. Embora sangrada, a organização não foi decapitada. Longe disso.
A ‘Ndrangheta (do grego andraghatos: homem valoroso!) é um império que reivindica 7 mil afiliados. Como confirma o historiador Enzo Ciconte, ela “controla 80% do tráfico mundial de cocaína”. Ela superou a Cosa Nostra junto aos traficantes colombianos. Seu faturamento foi avaliado em 44 bilhões de Euros em 2007, seja 3,5% do PIB italiano, segundo o instituto Eurispes. Mais que qualquer outra organização, ela tem capacidade de realizar, hoje, todo o tipo de transação internacional, lavar o dinheiro da droga, coletar um “imposto”, o pizzo, e oferecer oportunidades inesperadas de lucro e prosperidade social em um contexto onde o desemprego alcança 30% dos jovens. Uma influência adquirida lentamente, na sombra, no silêncio e no medo.
A administração Bush incluiu no início de junho a ‘Ndrangheta em sua lista das organizações criminosas mais perigosas. “A Europa e o mundo estão lotados de ‘ndranghetistas”, confirma Ciconte. “Na Alemanha, na Holanda, na Espanha e mesmo na França (Juan-les-Pins, Nice, Saint-Etienne), sem esquecer o Canadá, a América Latina e a Austrália”. Como explicar esse formidável sucesso? Primeiro, o declínio da Cosa Nostra sobre o mercado do crime. A velha máfia siciliana perdeu sua credibilidade após a prisão de diversos de seus integrantes, o que decapitou a organização (seus principais chefes estão presos, de Toto Riina a Bernardo Provenzano, passando pelo herdeiro designado, Salvatore Lo Piccolo, preso ano passado em Palermo). Um pizzino (bilhete) assinado por Mateo Messina Denaro, um dos raros chefes a ter escapado à prisão, resume a situação em 2006: “Logo, não haverá mais ninguém… vão prender até mesmo as cadeiras…”. Mas, em razão de sua estrutura piramidal, quando um capomandamento – um chefe da Cosa Nostra – é detido, uma seção inteira da organização desmorona. Pior: o mafioso confessa tudo e se torna um arrependido, colaborando com o Estado.
Este é um risco que não assume a ‘Ndrangheta. Sua estrutura a base de locali territoriais, sem ligação ente si, dissuade os desejos de deserção. “Não há arrependido na máfia calabresa, com exceção de dois colaboradores de pequena importância”, lembra Nicolas Grattieri, o magistrado encarregado das investigações sobre Duisburgo. Mas além da compartimentação rígida, é a consangüinidade que salva a unidade da ‘Ndrangheta. Pode-se contar quatro gerações de casamentos cruzados desde 1900, o que reduz o risco de colaboração com a Justiça: não podemos entregar nossa própria família! Tudo isso contribui para forjar um organismo criminal tão sólido quando o granito. Um interlocutor sério e eficaz para os cartéis colombianos, que paga à vista os carregamentos de cocaína. As ligações se multiplicam por toda parte. “Eu contei 24 hostéis-restaurante da ‘Ndrangheta na ‘zona vermelha’ de Bogotá”, confia o magistrado Grattieri. Estes calabreses imigrantes vivem como agentes convenientes, adianta. Eles têm contatos permanentes com as FARC [Forças armadas Revolucionárias Colombianas] e compram a “coca” no Cartel de Cali a 1.200 Euros por quilo, quando a matéria tem 98% de pureza. Mas, no mercado europeu, um grama de cocaína misturada custa 70 Euros. Podemos imaginar os lucros. Mas como lavar este dinheiro?
Aí, é preciso distinguir entre a reciclagem local e internacional. O primeiro caso é ilustrado de maneira exemplar pela cidade de Reggio, na Calábria, 190 mil habitantes na ponta da “bota”. Corso Garibaldi: 2 Km de butiques ultra-chiques ao longo de uma via reservada aos pedestres. Pode-se adquirir o que há de melhor em matéria de moda e design: roupas assinadas por Valentino ou Calvin Klein, bolsas Vuitton ou móveis Armani. Mas estas butiques estão vazias. Ninguém compra nada. Um mistério logo explicado por Vicenzo Macri, magistrado: “Estas lojas não são mais que vitrines. Pouco importa que não vendam nada. O proprietário emite a cada noite tíquetes de caixa como se houvesse vendas. E assim é lavado o dinheiro sujo da droga…”.
Ao nível internacional, os mafiosi calabreses se apresentam como perfeitos homens de negócios. “Consegui capturar seis que faziam tráfico de drogas entre a Bélgica, a Holanda e a França, movendo somas importantes de capitais. Eles falavam quatro línguas. E estavam irreconhecíveis para um calabrês como eu”, conta Grattieri. “A Europa está cheia de ‘ndranghetistas”, confirma Salvatore Boemi, procurador adjunto de Reggio. Eles se apóiam sobre os locali, de aproximadamente 50 pessoas cada um, instalados de maneira fixa sobre o território. “Nós sabemos que há um locali em Nice, por exemplo”, segue Boemi.
Mas segundo ele, é nos países do Leste que a ‘Ndrangheta se desenvolve mais rapidamente. Uma escuta telefônica já considerada velha, pois data de 1989, é explícita sobre esse assunto: “Compre tudo!”, diz um ‘ndranghetista a seu interlocutor. “Tudo o que?”, responde. “Tudo: imóveis, cafés, restaurantes, hotéis. O Muro [de Berlim] caiu”.
A ‘Ndrangheta sabe explorar as carências da legislação internacional e a má cooperação entre os serviços de policiamento. Com sua fabulosa mescla de arcaísmo (para os valores) e modernidade (para os métodos), ela se tornou a organização criminosa de ponta no Ocidente. “Espera-se que os governos europeus de dêem conta”, dizem em coro os magistrados Boemi, Grattieri e Macri. Estes não são mais que combatentes solitários às máfias.
Marcelle Padovani
Acesse o texto original clicando aqui.