Le Pays – Uagadugu

Ela acabou aborrecendo boa parte dos paquistaneses. A página Musharraf está atualmente virada, o que não ocorreu sem suscitar comemorações populares nas ruas de Islamabad, a capital, além de outros locais. Então, por que surpreender-se? Chegado ao poder em 1999 graças a um golpe de Estado, Pervez Musharraf via sua popularidade desmoronar a cada dia desde sua última manipulação eleitoral para se manter no poder. Uma imagem que foi ainda mais deteriorada pelo assassinato da oposicionista legendária Benazir Bhutto, à sombra do qual alguns tinham, com ou sem razão, visto a mão do governo. O presidente Musharraf estava, assim, com seus dias contados devido à aceleração dos acontecimentos. Uma situação que se tornou ainda mais complicada pela determinação da oposição para tomar seu lugar. Oposição cujos poderes acabaram ganhando um reforço após uma vitória nas últimas eleições legislativas.Atualmente, Asif Ali Zardari, viúvo de Benazir Bhutto, assassinada em dezembro, Nowaz Sharif e outros podem cantar vitória. Para não ser alvo da máxima humilhação de uma destituição (impeachment) anunciada, Musharraf preferiu tomar a iniciativa. É um ato de coragem e sabedoria, pode-se assim dizer, que merece ser saudado à altura. Além disso, Musharraf mostra, através deste gesto de elegância, que se preocupa com sua dignidade.

Em todo caso, um braço-de-ferro interminável entre ele e o governo de coalizão não serviria nem engrandeceria o Paquistão. Mas teria, ao invés, afundado ainda mais o país nas profundezas de uma crise política e sócio-econômica já bastante prejudicial para este Estado.

É preciso, dessa forma, felicitar-se por esta página ter sido enfim fechada, e por se abrir uma nova era para o bem do povo paquistanês; se assim for, que esta era venha a recolocar este país em seu caminho e a excluí-lo da dança dos Estados continuamente marcados pela instabilidade.

Contudo, se Musharraf foi mais ou menos pressionado a renunciar, este fato não é uma exceção ao bom funcionamento das instituições paquistanesas. Assim, teria sido preciso que os mecanismos de controle de poder do Estado executassem com eficácia o seu papel para evitar a perpetração de um novo golpe de Estado no Paquistão. Cabe salientar que estamos longe do caso mauritano, onde o bloqueio institucional acabou por ser resolvido pelas armas, como infelizmente acontece com freqüência neste continente [África].

Entregando as rédeas, Musharraf permite ao seu país cuidar de sua imagem. E, agindo assim, o Paquistão dá lições de democracia às repúblicas “bananeiras” do continente africano, e isto em diversos níveis.

Em primeiro lugar, quantos chefes de Estado africanos tomariam a sábia e corajosa decisão de renunciar, quando até mesmo o acordo de confiança que supostamente deveria uni-los a seu próprio povo foi quebrado? Muitos entre eles interiorizaram, se não tornaram claro, o lema “eu ou o caos”, de forma que a única maneira que resta para forçá-los a deixar o Olimpo é o recurso às armas.

Além disso, quantos são os parlamentos africanos a apresentar a mesma configuração que o Paquistão, onde a oposição possui a maioria e não mediriam as conseqüências de se deixar levar pelo perigoso jogo dos compromissos com o poder?

Ademais, os deputados da oposição teriam, há tempos, respondido aos chamados de um governo em baixa de popularidade, que tentaria corrompê-los.

Enfim, nós somos obrigados a constatar que sob os nossos trópicos, o vocábulo “impeachment”, este sistema baseado no modelo anglo-saxônico, é praticamente desconhecido nos parlamentos, ao menos na prática. Quantos parlamentares africanos ousariam engajar um procedimento de destituição deste tipo contra uma importante personalidade, mesmo se este se torne uma grande espinha atravessada na garganta de seu próprio povo? Em poucas palavras, isto é para dizer quanto mérito têm Musharraf, o Paquistão e seu povo. Mérito particularmente para Musharraf por ter provado que, apesar de seu estatuto de militar, ele não estava disposto a agir de maneira impulsiva, pronto a pôr o país em um estado de total desordem, com a única intenção de confiscar o poder.

Dado que é militar, podemos crer que ele sempre tem uma resposta pronta dentro dos quartéis. De qualquer maneira, sabemos que, sobre o continente negro, o estatuto de antigo militar suscita muitas vezes uma impressão de invencibilidade entre os chefes de Estado – caso do guineano em especial e do togolês desaparecido Eyadéma. Estes acabaram por crer que podem se permitir tudo, inclusive violar os princípios democráticos. Pervez Musharraf terá mostrado ao resto do mundo não ser desta espécie.

O que mostra que tudo se resume finalmente à concepção que cada presidente faz do poder e da democracia.

No entanto, nós não teríamos como ocultar o papel dos Estados Unidos na evolução da situação no Paquistão. Sem dúvidas, Musharraf teria se mantido no poder se tal fosse o desejo dos Estados Unidos. Mas para seu azar, George W. Bush acabou tomando uma certa distância de seu fiel aliado cujos resultados no campo da luta contra o terrorismo não estão à altura do que esperava a Casa Branca.

O que poderia ganhar Washington atrelando-se a um aliado contra o terrorismo que terminou por perder o controle sobre seus próprios extremistas islâmicos? Está claro que Musharraf, antigamente campeão na luta contra o extremismo religioso, tornou-se um aliado inútil para a Casa Branca, que certamente o convidou a retirar-se.

Em todo caso, despedindo-se do poder, o dirigente paquistanês pôde provar a satisfação moral de pôr fim às incertezas, com a iminência da partida de George W. Bush da casa Branca. Sua permanência no poder, apesar do contexto, teria certamente afetado as relações entre Washington e Islamabad. Um risco que os Estados Unidos não quiseram assumir.

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