La Voz del Interior – Córdoba
De acordo com as sinistras palavras do presidente Bush, “todas as opções estão sobre a mesa”, em relação ao programa nuclear do Irã. A posição é compartilhada pelos candidatos John McCain, republicano, e Barack Obama, democrata.
As ameaças e contra-ameaças sobre a questão nuclear são um subtexto de nossa época e, aparentemente, estão ficando mais insistentes.
A reunião de julho em Genebra entre o Irã e seis potências mundiais sobre seu programa nuclear terminou sem progressos. O governo de George W. Bush foi elogiado por adotar um tom mais conciliatório ao enviar um diplomata norte-americano que assistiu à reunião, apesar de não participar. E o Irã foi criticado, enfatizando-se que não havia negociado com seriedade. As potências advertiram Teerã [capital do Irã] de que poderia enfrentar sanções mais severas, ao menos que dê fim ao seu programa de enriquecimento de urânio.
Entretanto, a Índia foi aplaudida por aceitar um pacto nuclear com os Estados Unidos que a autoriza a desenvolver armas nucleares fora das limitações do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNPN). Essas armas serão desenvolvidas com a assistência dos Estados Unidos, além de outras recompensas. Dentre elas, para empresas dos Estados Unidos ansiosas por ingressar no mercado indiano de desenvolvimento de armas atômicas e amplos benefícios aos legisladores que assinaram o acordo, um alto preço a ser pago pela florescente democracia da Índia.
Michael Krepon, co-fundador do Centro Stimson e um dos principais especialistas em ameaças nucleares, assinalou de maneira razoável que a decisão de Washington “situa os lucros acima da não-proliferação”. Isto poderia significar o fim do TNPN se outros guiarem-se por este modelo, aumentando de maneira drástica os perigos ao redor do mundo.
Durante esse mesmo período, Israel, outro país que desafiou o TNPN, com apoio do Ocidente, realizou grandes manobras militares no Mediterrâneo oriental, que se presumiu serem um ensaio geral para um ataque a instalações nucleares iranianas.
Em um artigo na página editorial do The New York Times intitulado “Usando bombas para evitar uma guerra”, o proeminente historiador israelense Benny Morris escreveu que os líderes iranianos deveriam agradecer a Israel por usar bombas convencionais, pois “a alternativa seria um Irã transformado em um deserto nuclear”.
De maneira intencional ou não, Morris está revivendo um tema antigo. Durante a década de 50 do século passado, importantes figuras do então governante partido Trabalhista de Israel recomendaram, em discussões internas, “enlouquecer”, e ameaçaram derrubar os muros do templo, imitando o primeiro “atacante suicida”, o venerado Sansão, que matou mais filisteus com seu suicídio que em toda sua vida.
As armas nucleares de Israel talvez prejudiquem sua própria segurança, como indica de maneira persuasiva o especialista em estratégia Zeev Maoz. Mas, com freqüência, a segurança não é considerada pelos líderes do governo um assunto de alta prioridade, contrariando o que lhes ensina a história. E o “Complexo de Sansão”, como chamam os comunicadores israelenses, pode ser exibido para advertir ao amo que leve a cabo seu desejado trabalho de destruir o Irã, ou, caso contrário, os israelenses incendiarão a região e talvez o mundo.
O Complexo de Sansão, reforçado pela doutrina do “todo o mundo está contra nós”, não pode ser ignorado de forma precipitada. Pouco depois da invasão de 1982 ao Líbano, que deixou entre 15 mil e 20 mil mortos em um esforço para assegurar o controle dos territórios ocupados por parte de Israel, Aryeh Eliav – um dos mais famosos pacifistas de Israel – escreveu que a atitude daqueles que “trouxeram o Complexo de Sansão, segundo o qual devemos matar e enterrar a todos os pagãos ao nosso redor enquanto morremos com eles”, é um tipo de “loucura” bastante exagerada. E ainda o é.
Os analistas militares dos Estados Unidos reconheceram isto. Tal como destacou o tenente-coronel do exército Warner Farr em 1999, um dos “propósitos das armas nucleares israelenses, nem sempre enfatizado, ainda que óbvio, é insinuar seu ‘uso’ aos Estados Unidos”. Talvez para assegurar o constante apoio dos Estados Unidos à política israelense. Ou, do contrário, atrever-se a arcar com as conseqüências.
Outros vêem perigos posteriores. O general Lee Butler, ex-comandante-em-chefe do Comando Estratégico dos Estados Unidos, disse em 1999 que “é perigoso que, neste caldeirão de ódios que chamamos Oriente Médio, um país se arme de maneira ostensiva com arsenais de armas nucleares… e que inspire outros países a fazer o mesmo”. Este fato é dificilmente irrelevante com respeito às preocupações sobre o programa nuclear do Irã, mas não faz parte da agenda.
Também está fora da agenda o artigo 2 da Carta das Nações Unidas, que proíbe o uso da força em assuntos internacionais. Tanto os Estados Unidos como os partidos políticos proclamam de maneira insistente sua criminalidade, ao declarar que “todas as opções estão sobre a mesa” em relação aos programas nucleares do Irã.
Alguns vão mais longe, como John McCain, que brincou sobre como seria divertido bombardear o Irã e matar os iranianos, apesar de que a piada talvez não seja muito bem recebida nestes povos invisíveis do mundo que, segundo o historiador britânico Mark Curtis, não merecem a atenção dos privilegiados e dos poderosos.
Barack Obama declara, de sua parte, que fará tudo o que está ao seu alcance para evitar que o Irã produza armas nucleares.
O coro de denúncias sobre os novos Hitler de Teerã e a ameaça que representam à sobrevivência de Israel foi avariado por algumas vozes. Ephraim Halevy, ex-chefe do Mossad – o serviço de inteligência de Israel – advertiu que um ataque israelense ao Irã “poderia ter um impacto em nosso país durante os próximos 100 anos”.
Um dos participantes da reunião de julho foi o ministro de Relações Exteriores do Egito, Ahmed Aboul Gheit, que esboçou a “posição árabe”: “Trabalhar para um acordo político e diplomático sob o qual o Irã manterá o direito de usar a energia nuclear com fins (exclusivamente) pacíficos”. A “posição árabe” é compartilhada pelo Movimento de Países Não-Alinhados. Em 30 de julho, seus 120 membros reiteraram o respaldo ao Irã em seu programa de enriquecimento de urânio de acordo com o TNPN.
Também a maioria dos norte-americanos apóia essa posição, de acordo com as pesquisas. E também dão apoio à “posição árabe”, que propõe uma zona livre de armas atômicas em toda a região. Esse passo reduzirá drasticamente as ameaças, mas não figura na agenda dos poderosos. E tampouco nas campanhas eleitorais.
Benny Morris nos assegura que “cada um dos serviços de inteligência do mundo crê que o programa iraniano tem como propósito fabricar armas”. Da mesma maneira que o polêmico Relatório Nacional de Inteligência dos Estados Unidos, difundido em novembro de 2007, disse que existia “uma alta probabilidade de que no último trimestre de 2003 Teerã tenha cessado seu programa de armas nucleares”. Talvez Morris esteja oferecendo informação de fontes de inteligência israelenses. E que esteja generalizando ao falar de “cada agência de inteligência” do mundo.
É dito, em círculos neoconservadores, que, se Barack Obama ganhar as eleições, o dueto Bush-Cheney deveria bombardear o Irã, pois a ameaça iraniana é muito grande para ser deixada nas mãos de um democrata medroso. Também existiram versões da imprensa – recentemente de Seymour Hersh no The New Yorker – sobre “operações secretas” dos Estados Unidos no Irã, um método também conhecido como terrorismo internacional.
Em junho, o Congresso dos Estados Unidos esteve a ponto de aprovar uma resolução vigorosamente apoiada pelo lobby israelense, exigindo o virtual bloqueio do Irã. Trata-se de um ato de guerra que poderia ter causado uma conflagração a nível internacional. Pressões do movimento pacifista parecem haver derrotado esse esforço em particular, segundo Mark Weisbrot em Alternet.org, mas seguramente outros o seguirão.
O governo do Irã merece uma severa condenação por muitas razões, mas a ameaça iraniana segue sendo uma desesperada elaboração daqueles que se arrogam o direito de governar o mundo, e consideram qualquer impedimento a seu justo governo uma agressão criminal. Essa é a ameaça principal que deve preocupar-nos, assim como preocupam as mentes mais sãs do Ocidente e aos povos do resto do mundo.
Noam Chomsky
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