A Página – Porto
A descoberta dos princípios da termodinâmica, na primeira metade do século XIX, iria ser em breve percebida pela sua importância para o pensamento econômico. Radicando-se no desenvolvimento tecnológico, a sua formulação, em termos de fluxos e transformações e em conceitos de conservação e dissipação, comportava já essa proximidade epistemológica.
Na segunda metade do século XIX, William Jevons, pioneiro do pensamento econômico neoclássico, foi também precursor da corrente da economia ecológica e energética. Ele reconheceu a importância da energia primária no desenvolvimento econômico e na sustentação do poder político, associando a sustentabilidade do império britânico à disponibilidade de carvão mineral. Pouco mais tarde, o ucraniano Sergei Podolinsky tentou reconciliar a teoria da mais-valia do trabalho [http://pt.wikipedia.org/wiki/Mais-valia] com a análise termodinâmica do processo econômico, para concluir que os limites do crescimento econômico têm não só a ver com relações de produção, mas também com as leis físicas, antecipando conceitos que são agora adotados por algumas correntes de pensamento econômico contemporâneo.
Já no primeiro quarto do século XX, Frederick Soddy enfatizou a importância dos princípios da termodinâmica na esfera econômica, e reconheceu na transição das fontes de energia renováveis de origem solar para as fontes de energia fóssil (uma mudança de fundos para depósitos) a base de sustentação do crescimento econômico então em curso. Nas décadas de 1920 e 1930 desenvolveu-se nos EUA o movimento tecnocrático – dirigido por Howard Scott –, a que M. King Hubbert aderiu. Os tecnocratas constituíram um movimento racionalista radical que, pela primeira vez, realizou estudos econômicos baseados não em unidades monetárias, mas físicas. Algumas das idéias do movimento tecnocrático reemergiriam no último quarto do século XX, designadamente na análise energética e na ecologia industrial.
Após a Segunda Guerra Mundial surgiram várias linhas de pensamento crítico que trouxeram para a teoria os fundamentos físicos da atividade econômica. King Hubbert, que animara o movimento tecnocrático e persistira na crítica da economia monetarista, procedeu à análise e à modelação dos dados empíricos relativos à descoberta e extração de energia fóssil, para deduzir acertadamente o pico da produção de petróleo nos EUA (cerca de 1970) e no mundo (no início do presente século). Howard Odum, protagonista central na fundação da Ecologia como disciplina científica, atribuiu um modelo de fluxos energéticos ao funcionamento sistema integrado sociedade – natureza, e adotou o princípio Darwiniano da seleção natural para enunciar um novo princípio, segundo o qual o critério da seleção natural é a maximização da eficiência energética. Argumentou que a energia está na origem do valor econômico, e que a todo o fluxo monetário está associado um fluxo de energia em sentido contrário – em que, todavia, o dinheiro flui em circuito fechado, ao passo que a energia flui do exterior, através da fronteira da esfera econômica, para depois a deixar como calor dissipado.
Na segunda metade do século XX é ainda relevante o trabalho fortemente interdisciplinar do matemático romeno Nicholas Georgescu-Roegen. Ele levou ao extremo o questionamento da tradicional função de produção de Cobb-Douglas [fórmula usada na economia para calcular a relação dos fatores de produção – mão-de-obra, capital e tecnologia – com a produção], argumentando contra a intermutabilidade dos fatores de produção e enfatizando a relevância do suporte material do processo econômico. Com Georgescu-Roegen, Herman Daly, Robert Ayres, Robert Costanza e vários outros prosseguiram as críticas e construções alternativas ao modelo neoclássico – elaborado por Paul Samuelson, Robert Solow e Joseph Stiglitz, e consagrado pelos prêmios Nobel atribuídos a estes três autores. Daquele trabalho persistente se consolidaram as escolas conhecidas por Economia Ecológica e Ecologia Industrial. Daly retomou a crítica à sustentabilidade física do crescimento econômico, contrastando esse conceito com as leis da termodinâmica. A Robert Ayres se deve um extenso corpo de investigação econômica com forte suporte empírico, focando os fluxos de matéria e energia através da esfera econômica e em interação com a natureza, sujeitos aos princípios da termodinâmica. Ele considerou, em particular, o problema da exaustão de recursos naturais: recursos materiais de teor decrescente requerem crescente quantidade de energia de alta qualidade (baixa entropia) para serem extraídos; tal que, enquanto um estoque é exaurido, é paralelamente exaurida uma quantidade de energia de alta qualidade (baixa entropia). Costanza argumentou a favor de uma teoria de valor econômico fundada na energia incorporada, e admitiu que um mercado perfeito (embora não existente) conduziria a preços proporcionais à energia incorporada.
A presente crise financeira, energética e alimentar parece indicar que a teoria econômica que prevaleceu no campo do reconhecimento acadêmico e nas instituições financeiras internacionais, menosprezando a realidade da interdependência homem-natureza e os limites impostos pelas leis naturais, está posta em cheque e carece ser urgentemente superada.
Rui Namorado Rosa
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