Common Ground News Service – Washington
Será que já houve um “era uma vez” quando nós éramos mais tolerantes e abertos frente àqueles que percebemos como diferentes?
Houve uma era dourada na Espanha, há mil anos, quando judeus, cristãos e muçulmanos viveram em uma harmonia mútua. Agora, entretanto, há indícios de uma intolerância global crescente, dentro e entre as nações. Estamos adentrando na selvageria do século XXI, que vem tanto do fundamentalismo laico como do religioso, ambos nascidos do medo.
Onde encontramos a força de que precisamos, depois do jornal das oito, para afastar o medo, para continuar sonhando, para fazer perguntas? Qual é o propósito da religião? Será realmente uma aceitação amorosa ou será um dogma?
Historicamente, pessoas interpretaram a religião sugerindo que “nós” temos as respostas e “eles” precisam vir para o nosso lado, ou o contrário. A implicação subjacente é que nós temos a informação correta de quem é Deus e o que Deus quer. Se Deus está do nosso lado, nós podemos justificar quando excluímos os outros, ou mesmo a violência em nome da “nossa” verdade. Um longo caminho separa a afirmação de superioridade moral do respeito aos direitos alheios.
“Em uma cidade perto do oceano, em uma casa numa colina…” inicia uma jornada que ajuda a iluminar o caminho a seguir. Escrito em inglês, hebraico e árabe, o livro infantil de Paul Harbridge, “Helena’s Voyage” [A Viagem de Helena], promove a tolerância religiosa com simplicidade – atraindo as crianças questionadoras e os adultos cuja preocupação é estimular a abertura natural das crianças ao que lhes é diferente.
Harbridge escreveu eloqüentemente sobre aquilo que o impulsionou a escrever “Helena’s Voyage”. “Minha filha Helena morreu enquanto dormia em 2006. Enquanto eu estava de luto, eu pensei em como a mãe dela era da Espanha e como, muito provavelmente, Helena tinha antepassados das crenças cristã, judaica e muçulmana. Ao mesmo tempo, eu vi na televisão imagens do Oriente Médio de mães tirando suas crianças mortas de dentro dos destroços de prédios bombardeados, e pela primeira vez eu compreendi aquele sofrimento. A partir desses pensamentos cheios de paixão, “Helena’s Voyage” nasceu.”
Helena é uma menina doente que anseia por mais vida e vitalidade. Ela é visitada por uma musa, ou mensageira, que viaja com ela por três cidades – uma judaica, uma cristã e outra muçulmana. Em cada cidade, Helena é convidada a ficar, mas o anjo que a acompanha em sua viagem a leva adiante. Por estar aberta a outros chamados e por se perguntar “como posso saber qual dessas religiões é verdadeira?”, Helena descobre pontos em comum entre cada fé. Ela aprende que todas as religiões promovem os mesmos valores, embora revestidos por tradições diferentes.
“Helena’s Voage” tem suas raízes nos ensinamentos sagrados, de todas as fés, que afirmam a inter-conectividade humana.
Uma oração muçulmana pela paz pede que conheçamos uns aos outros, ao invés de desprezarmo-nos (Corão 49:13). Uma reza judaica do Torá pede por sabedoria, que ela possa estar conosco, trabalhar conosco e nos guiar discretamente em nossos afazeres (Livro da Sabedoria 9:1-3). São Paulo, o mensageiro da cristandade, clamava os seguidores a tolerarem uns aos outros caridosamente e a fazerem todo o possível para preservar a unidade do Espírito que nos une, pois somos um Corpo, um Espírito (Efésios 4:2-4).
Místicos sufis [corrente filosófica islâmica] nos contam que uma vez que alguém verdadeiramente encontra Deus, o vislumbre de Deus carrega a pessoa para além do estreitamento das denominações, ou das meras distinções humanas. Isto, de acordo com a estudiosa das religiões inglesa Karen Armstrong, permite que alguém se sinta igualmente em casa em uma sinagoga, uma igreja ou uma mesquita. Como o místico muçulmano Hafiz, do século XIV, proclamou:
Eu aprendi tanto de Deus
Que eu não posso mais me chamar
Um Cristão, um Hindu, um Muçulmano
Um Budista, um Judeu …
“Helena’s Voyage” é poderoso porque revela que não estamos sós, ou em exclusividade, na nossa busca por conhecer Deus. Ao nos darmos conta de que os adeptos das religiões dominantes têm mais coisas em comum do que eles pensam, nós encontramos a sabedoria para nos guiar, um gesto de cada vez, em escolhas tolerantes nos níveis pessoal, local e internacional.
Que os livros infantis contenham tanta sabedoria não deveria ser nenhuma surpresa. Depois de tudo, foi Jesus Cristo quem nos encorajou a aprender com os jovens: “Aquele que se tornar humilde como este menino, este é o maior no reino dos céus” (Mateus 18:4).
Sharon J. Doyle*
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* Sharon J. Doyle é conselheiro e palestrante de um curso de espiritualidade entre fés na Universidade St. Francis Xavier, em Antigonish, Nova Escócia, no Canadá. “Helena’s Voyage” é publicada pela O Books (www.helenasvoyage.com). Este artigo foi escrito para o Serviço de Notícias Common Ground (CGNews).