The Palestine Chronicle – Mountlake Terrace

Jornalistas e escritores palestinos parecem ter dificuldades em abordar a atual moda de ataques com tratores de esteira [máquinas que geralmente unem uma escavadeira a uma carregadeira]. Estes equipamentos de construção parecem ter sido trazidos ao nosso conflito nacional como uma nova arma nas mãos de palestinos atuando dentro de Israel.

Eu vejo esta surpresa, entretanto, como algo que os escritores palestinos tomaram emprestado da mídia de Israel. Isto talvez seja compreensível, uma vez que o assunto dos ataques com tratores de esteira não tem precedente, e não é um assunto fácil de abordar. A resposta dos jornais palestinos, então, tem sido de lidar com a questão a partir de uma perspectiva puramente jornalística, e a maioria dos jornalistas ainda está estonteado diante do que está acontecendo.

The Palestine Chronicle

Fonte: The Palestine Chronicle

O editor chefe do jornal diário palestino Al-Hayat Al Jadida, Hafidh Al-Barghouthi, contudo, parece ter sido capaz de digerir o fenômeno. Em seu jornal ele está chamando a moda de “Bulldozers’war” [Guerra dos tratores de esteira]. O cerne da questão dos tratores de esteira é complicado, e o que a máquina representa para os palestinos pode explicar porque seu uso em ataques é tão surpreendente e ainda assim compreensível.

Para uma pessoa de fora, reflete Al-Barghouthi, tratores de esteira são máquinas usadas para cavar; eles são usados na construção, para pavimentar ruas, para escavar pedreiras e para irrigar fazendas. Eles são uma ferramenta útil, inofensiva.

No contexto palestino, contudo, eles tomam um significado diferente.

Tratores de esteira são máquinas usadas para construir colônias israelenses em terra palestina. Eles são usados para escavar as lavouras e confiscá-las de agricultores palestinos. Palestinos viram tratores de esteira derrubar oliveiras centenárias; eles os viram derrubar suas casas. O trator de esteira foi a ferramenta usada pelas forças israelenses para matar a ativista solidária e estudante estadunidense Rachel Corrie. Rachel foi morta por um trator de esteira Caterpillar D9 em março de 2000. A máquina havia sido enviada para Israel por fabricantes de seu próprio país de origem.

Para os palestinos, diz Barghouthi, os tratores de esteira são ferramentas da ocupação. Eles são usados para a destruição e não para a construção.

Levem as ferramentas dessa ocupação, diz Barghouthi, e então também desaparecem as ferramentas da destruição. Isso, diz ele, soa verdadeiro tanto para a destruição das terras palestinas quanto para a perda de vidas israelenses. “A ocupação”, diz ele, “é responsável, então deixem que se retirem [os israelenses] e levem embora os seus tratores de esteira.” Uma vez que as máquinas e o que elas representam tenham desaparecido, continua ele, “eventualmente não haverá mais vítimas de tratores, sejam eles trabalhadores solidários estrangeiros, israelenses ou palestinos.”

“Todas as pessoas machucadas por esses tratores de esteira, sejam seus nomes Corrie, Cohen ou Kamal”, diz Al-Barghouthi, “são humanos” que não merecem ser destruídos por ferramentas que deveriam contribuir para o avanço da humanidade.

Há pessoas nos dois lados que entendem que todas as vidas têm valor. Isto fica evidenciado no tratamento do corpo de Ghassan Abu Teir, 22 anos, motorista do trator utilizado no ataque do dia 22 de julho. Um grupo quase que exclusivamente de judeus ortodoxos que se voluntariou para o ZAKA (Zihuy Korbanot Ason, traduzido como Identificação de Vítimas de Desastres) recuperou o corpo de Abu Teir, e qualquer membro do homem que tivesse sido decepado durante o incidente. Tanto para o Judaísmo Ortodoxo como para o Islã, ter um corpo completo para enterrar é importante. O ZAKA é, portanto, visto como um serviço para famílias de judeus mortos em tais incidentes, assim como palestinos.

Enquanto muitas pessoas veriam quatro rabinos carregando o corpo de Abu Teir como inumano, diz Al-Barghouthi, isto é na verdade um serviço de respeito à vida humana.

O presidente palestino, Mahmoud Abbas, parece concordar, e condenou a morte de civis em qualquer lugar e sob qualquer circunstância depois de noticiado o segundo ataque com um trator de esteira. Tais ações respeitosas parecem ter sido esquecidas esses dias, enquanto planos para uma paz respeitosa estão rapidamente perdendo espaço para os incidentes com tratores de esteira.

Todos os lados parecem ter abandonado as idéias do chamado “Road Map” [plano de paz adotado em maio de 2003] e estão tomando as ferramentas físicas da ocupação e transformando-as em armas. Al-Barghouthi chama a isso de “Plano Bulldozer”. Ele recordou a história recente de colonos israelenses lançando projéteis caseiros em cidades ao norte de Nablus [63 km acima de Jerusalém]. A ação copiava o uso de projéteis caseiros lançados a partir da faixa de Gaza, às vezes utilizando canos de esgoto quebrados que transbordam nas ruas das cidades.

Essas ações são simbólicas, pensa Al-Barghouthi – pegar as coisas ao seu redor que representam a ocupação e usá-las contra alguém visto como inimigo. “Apenas Deus sabe quais serão as novas armas no conflito entre Israelenses e Palestinos”, diz Al-Barghouthi. “As pessoas usarão liquidificadores, torradeiras, panelas de pressão?” Ele se pergunta o que vai acontecer quando as pessoas tiverem ido suficientemente longe no caminho desse “Plano Bulldozer”. “O que a segurança de Israel vai fazer então?”, pergunta ele. E o que dirão as pessoas quando perguntarem o que aconteceu ao plano “Road Map”?

Nasser Lahham*

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* Nasser Lahham é o Editor Chefe da agência de notícias Ma’an. Este artigo é distribuído pelo Serviço de Notícias Common Ground (CGNews)e pode ser acessado em www.commongroundnews.org. (Fonte: Agência de Notícias Ma’an, 23 de julho de 2008, www.maannews.net/en).