Asia Times – Hong Kong
Luis Inácio “Lula” da Silva reelegeu-se presidente do Brasil em um domingo do mês de outubro de 2006, com quase 62% dos votos válidos. Assim como o primeiro turno realizado três semanas antes, esta foi uma eleição totalmente eletrônica. Os mais de 125 milhões de votantes brasileiros praticamente não viram panes no funcionamento dos aparelhos, Em menos de três horas após o encerramento das seções, que ocorreu às 17h, todos os resultados eram conhecidos – e incontestáveis – para os cargos de presidente e governadores, entre outros.
Isto sem os perigosos aparelhos da empresa Diebold. Não houve Florida 2000. Nem Ohio 2004. Os eleitores de Arizona, Colorado, Connecticut, Florida, Indiana, Maryland, New York, Ohio, Pennsylvania e Washington – onde escândalos poderiam ter ocorrido nas últimas eleições estaduais – nem sonham com tal nível de transparência.
Logo após a virada do século, o grupo de economistas Goldman Sachs introduziu o conceito abstrato denominado BRIC, classificando Brasil, Rússia, Índia e China como as grandes potências emergentes do século XXI – os principais atores de uma importante evolução geoeconômica.
Com exceção desta classificação, aparentemente não há muitas similaridades entre os países do BRIC. A China já se estabeleceu como a fábrica do mundo. A Rússia é o que se pode chamar de nação Gazprom – referência à gigante estatal russa de exploração de petróleo. A Índia empenha-se para firmar-se como um importante fornecedor de serviços. E o Brasil, na ausência de um projeto nacional, ainda não sabe exatamente o que deseja; certamente este não se resumirá à simples função de grande fornecedor de matérias-primas e recursos naturais.
Com efeito, a economia brasileira deve ultrapassar a italiana em 2025, a francesa em 2031 e a britânica em 2036. Resta saber como… E, em especial, de que maneira integrar a vasta massa dos excluídos do banquete.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), renomado sociólogo convertido ao neoliberalismo, não reconhece o abismo entre ricos e pobres em seu país, mas defende a existência de uma divisão entre um país “moderno” e outro “arcaico”. A maioria dos eleitores não concorda com sua teoria.
Com mais de 58 milhões de votos, Lula – um verdadeiro mito político, antigo herói dos trabalhadores que chegou à presidência – conseguiu reeleger-se porque brasileiros de todas as classes consideram a questão das desigualdades sociais o principal problema nacional. Com Lula no poder, pela primeira vez na história um governo brasileiro pôs em prática ações efetivas para reduzir as desigualdades, impressas na estrutura social e na história deste país. O Brasil possui uma das mais arrogantes, mesquinhas e preconceituosas elites do mundo, indiscutivelmente pior que as elites da Índia, Paquistão, Turquia, Egito e África do Sul.
Lula – e não foi o ex-primeiro ministro britânico Tony Blair – pode ter oferecido uma embrionária “terceira via” política para o mundo emergente. Sua fórmula é uma mistura de neoliberalismo com políticas de assistência social. Sob um quatro de rigorosas políticas de controle monetário e orçamentário, o primeiro governo de Lula conseguiu aumentar em 25% o valor da remuneração mínima e criar um programa de ajudas familiares financiado pelo estado, que atinge 12 milhões de famílias pobres. Estas, em contrapartida, devem manter seus filhos na escola.
O Brasil reduziu seu déficit orçamentário e sua dependência com relação aos capitais internacionais, além de livrar-se das desvalorizações e recessões que tanto assombram as economias mundiais. Acontece que a economia cresceu apenas 2,8% em média durante estes quatro anos, um valor irrisório se comparado ao crescimento das outras nações do BRIC.
Desta forma, a tarefa crucial de Lula é criar condições favoráveis para acelerar o crescimento econômico de seu país. Como o Brasil é um Estado federativo, isto implica na realização de alguns compromissos dolorosos com alguns governadores estaduais (atualmente cerca de 60% deles são aliados do governo). O Brasil precisa essencialmente realizar uma reforma agrária, reformar sua ineficiente burocracia, investir massivamente em educação e melhorar sua produtividade. E para combater a pobreza e a exclusão social, o Brasil ainda precisa reformar seu sistema de previdência social e reduzir suas taxas de juros – as maiores do mundo.
China e Rússia já encontraram seus respectivos modelos de desenvolvimento. A abordagem chinesa tem sido particularmente sedutora aos países africanos – embora ao mesmo tempo a ofensiva chinesa na África tem sido considerada por muitos, como uma nova forma de imperialismo. A Rússia encontra resistência internacional por causa da violência e corrupção existentes no país.
Consideradas duas das maiores e mais dinâmicas democracias do mundo, compreender como Índia e Brasil estão trilhando seus longos e prósperos caminhos, poderia ser ainda mais instrutivo para o mundo emergente.
O Brasil tem um trauma ligado à inflação – este mal assombrou a economia do país durante mais duas décadas. Isto explica porque o principal foco do Brasil, contrariamente à Índia, não é o crescimento, mas o combate à inflação. A tarefa principal na Índia é ainda mais vertiginosa que a brasileira: na Índia, mais de 300 milhões de pessoas subsistem com menos de um dólar por dia. Esta cifra é superior à população total do Brasil, que soma 186 milhões. A Índia conseguiu atingir o patamar de crescimento econômico dos 6% médios anuais mantendo sua inflação abaixo dos 5% ao ano. Se a Índia seguir seu caminho, ela reduzirá a pobreza de maneira significativa até 2030.
Em comparação com o Brasil, a Índia possui um melhor planejamento em longo prazo. A maioria da base governista de Manmohan Singh no parlamento indiano é ainda mais magra que a do Partido dos Trabalhadores no Brasil. Mas os assuntos de interesse nacional parecem avançar em ritmo satisfatório – como a aprovação de medida permitindo o investimento estrangeiro em infra-estruturas e no mercado da construção civil. Ao contrário do caso brasileiro, a burocracia governamental indiana não interfere nas questões essenciais. Lula assumiu o compromisso de mudar esta situação.
A Índia investe mais em pesquisa – em mais de 250 universidades. No lugar de exportar bens manufaturados, como o Brasil, a Índia exporta serviços, especialmente em setores ligados à tecnologia. Outra vantagem importante para a Índia é o espírito globalizado de suas principais empresas, como Mittal, Tatá, Infosys e o gigante farmacêutico Dr Reddy’s. Ao contrário do Brasil, a Índia sabe valorizar seus produtos com excelência, e em língua inglesa, no mercado mundial. A imagem do Brasil deve ser tão boa quanto a indiana – em termos da música, futebol, moda, etc. – mas não é boa com relação ao mundo dos negócios. Qualquer investidor internacional sente-se atraído pela qualificada mão-de-obra indiana, definida sem modéstia como uma “vantagem competitiva”.
Mas, na realidade, realizar negócios ambos os países ainda não é tarefa fácil. Na lista dos países que facilitam a realização de negócios, o Brasil encontra-se na 121ª posição, e a índia em 134ª. Na Índia, leva-se 35 dias para criar uma empresa; no Brasil o mesmo período pode chegar a 152 dias. A média global é de 16,1 dias.
As empresas brasileiras desembolsam 71.7% de seus lucros em taxas e impostos; as indianas pagam ainda mais: 81,1%. A média global para o quesito é 47,8%. Segundo pesquisa realizada pelo Banco Mundial, para os executivos brasileiros os principais problemas para os negócios são os altos impostos e a instabilidade econômica, enquanto para os indianos o problema é a corrupção e o custo na energia.
Na Índia, se um indivíduo recebe mais de 2 mil dólares por ano, este é considerado de classe média; este valor sobe para 3,6 mil no Brasil. Neste mesmo país, ainda não existe um verdadeiro esforço para oferecer produtos populares para as classes médio-baixa e baixa. Não ocorre o mesmo na Índia, onde a Tata está investindo na produção de um novo veículo popular que será vendido por 2 mil dólares.
O Brasil é ainda mais custoso que a Índia para negócios em nível local. Linhas de financiamento empresariais na Índia custam aproximadamente 14% ao ano. No Brasil este valor é de 60%. O crédito pessoal na Índia custa 26% ao ano. No Brasil são 90%. Micro-empréstimos já beneficiaram 32 milhões de pessoas na Índia, totalizando 1,5 bilhões de dólares. No Brasil o valor é parecido, 1,2 milhões, mas somente 3 milhões de pessoas se utilizaram deste benefício. A vasta economia informal representa 23,1% do Produto Interno Bruto (PIB) na Índia e 39,8% no Brasil.
O Brasil possui algumas vantagens comparativas. A dívida pública indiana é superior à brasileira – 79,5% do PIB, em comparação com 51,5%. O país não possui problemas territoriais como os existentes entre Índia e China, e Índia e Paquistão. Assim, os gastos com defesa são superiores na Índia (4% do PIB) do que no Brasil (apenas 1,5%). O Brasil é o verdadeiro líder do G20 – grupo dos países que lutam na Organização Mundial do Comércio pelo fim dos subsídios agrícolas existentes nos Estados Unidos e na União Européia. Se houver tal redução na próxima década, tal fato seria um importante impulso para o poderoso setor de agronegócios no brasileiro.
Lula prometeu atingir o patamar dos 5% de crescimento econômico em 2007. Ainda não é suficiente, assim como os 8% praticados pela Índia também não são o bastante. O fato é que o mundo em desenvolvimento permanece aberto a uma terceira via – um sistema mais justo que ofereça soluções para a complexa equação que engloba sólido crescimento econômico e consciência social.
Pepe Escobar