As negociações entre a Rússia e a Organização Mundial do Comércio (OMC), que já perduram mais de 15 anos, se intensificaram nas últimas semanas em decorrência de consultas multilaterais realizadas em Genebra. Mesmo tropeçando em questões polêmicas como os subsídios agrícolas, taxas de exportação sobre madeira, e a política de preços da Gazprom – a companhia petrolífera estatal –, os representantes russos estavam otimistas com relação à eminente entrada na organização. Com o apoio de seus principais parceiros de comércio, a União Européia e os Estados Unidos, parece não mais haver barreira significativa para o ingresso oficial russo na instituição – a menos que o Kremlin, após ponderar os riscos e conseqüências desta mudança, decida que a Rússia ainda não está pronta para ser membro da OMC.

Nestes últimos tempos, a retórica dos líderes russos tem apresentado uma cega e ingênua euforia com relação ao auto-declarado “milagre econômico” russo. Sempre que podem, afirmam que a Rússia tornou-se uma ilha de estabilidade em meio à tormenta financeira mundial. Os principais dirigentes russos são relutantes a enfrentar a realidade.

Mesmo apresentando impressionantes índices de crescimento impulsionado pelas exportações de recursos naturais, o país ainda não está preparado para entrar para o clube do comércio mundial. Entrar agora seria ignorar os sintomas da principal deficiência sofrida pela economia russa, conhecida como Dutch Disease (ou Doença Holandase que em português é um conceito econômico que procura explicar a aparente relação entre a exploração de recursos naturais e o declínio do setor manufatureiro). Todos os sintomas clássicos estão presentes – grandes lucros pela exportação de recursos naturais, crescimento baseado dirigido pelo consumo, grande fluxo de investimento estrangeiro, setores industriais nacionais não competitivos, valorização da moeda e aceleração da inflação. O ingresso na OMC contribuiria para agravar estes problemas, já que a absoluta maioria das empresas domésticas ainda não atingiu um nível de competitividade para competir com empresas estrangeiras. Outros elementos ainda contribuem negativamente, como o aumento do desemprego, o déficit de infra-estrutura e políticas de proteção social inadequadas.

Entretanto, o governo do presidente Dmitry Medvedev e do primeiro ministro Vladimir Putin continua alimentando expectativas de que o suposto milagre econômico continuará indefinidamente. Mas a entrada russa na OMC no futuro próximo terá como conseqüência o agravamento dos problemas e contradições atuais. As importações, que já representam metade do descontrolado consumo interno, e o forte rublo são os maiores inimigos da indústria nacional. A entrada russa na OMC aceleraria o fluxo de bens importados.

Em uma recente conferência de investidores realizada em Moscou, Marco Franco, chefe da delegação da Comissão Européia, realizou uma análise realista da vulnerabilidade econômica russa. “Em caso de impactos negativos imprevistos, os mecanismos de crescimento da economia russa podem estagnar ou mesmo reverter-se,” disse ele.

Igor Yurgens, vice-presidente da sociedade Renaissance Capital, presidente do Institute of Modern Development, e um dos principais conselheiros de Medvedev, afirma que ainda existem pontos de desacordo entre o Ministério das Finanças e Ministério do Desenvolvimento Econômico sobre o programa de desenvolvimento do governo. Alexei Kudrin, o ministro das finanças, acredita que a estabilidade financeira não pode ser colocada em risco por um crescimento inflacionário. Já a ministra do desenvolvimento econômico, Elvira Nabiullina, insiste em aumentar o investimento governamental em infra-estrutura e segurança social enquanto ainda são seguros os ganhos oriundos do petróleo. O debate entre os ministros envolve uma questão fundamental, o da estratégia econômica adotada. Enquanto este problema não for solucionado, a entrada na OMC será prematura.

Não há dúvidas de que a Rússia necessita uma mais profunda integração com a economia global, o que possivelmente terá como conseqüência sua entrada na OMC. Mas isto deve ocorrer em tempo e maneira mais adequados com os interesses estratégicos russo de longo prazo.

Ainda há uma esperança de que a Rússia tomará uma atitude racional e bem calculada com relação à OMC. Ao invés de uma entrada às pressas, acreditando que esta organização lhe oferecerá uma poção mágica para curar suas deficiências econômicas, é preferível que Moscou observe o caso da Ucrânia como um exemplo. É preciso esperar e observar se a recente aproximação deste país à OMC será bem sucedida e tomar antes de tomar as conclusões necessárias.

Por Felix Goryunov

St. Petersburg Times (São Petersburgo)