Portugal - Em épocas de crise, o melhor mesmo é ir às compras na própria casa. Desenterrem-se leituras eternamente adiadas, leia-se finalmente o “Ulisses” de James Joyce que anda por ali há séculos. Os livros podem ser caros, mas ler continua não sendo tanto assim. Até porque um livro pode sempre passar por muitas mãos. E há as bibliotecas, a “forma de entretenimento mais barata de todas”, lembra John Carey, professor de Inglês em Oxford, no jornal “Guardian”. A partir desta lógica, a leitura – não o mercado dos livros – será uma das atividades que menos sofrerá com a crise econômica mundial. Mas nem tudo é lógico e nem tudo se pode prever. O podemos esperar, então, dos próximos anos?

Enquanto a economia afunda, o mundo busca alternativas para salvar o mercado das artes. (David Lachapelle)
Já temos algumas luzes. Diariamente encontramos notícias que apontam para o mesmo sentido: cortes em todas as áreas da cultura. Grandes fundações na Europa reduzem orçamentos em 20 a 25 por cento; sólidos festivais de teatro (como o de Edimburgo) enfrentam problemas financeiros; museus, como o Getty Museum de Los Angeles, deixam de ser “luxuosos”; leilões de arte entram em baixa, depois de anos incólumes às flutuações do mercado; lojas de música, como a Virgin, fecham as últimas lojas nos EUA…
“As pessoas com memória das recessões dos anos 1970 e 1980 sabem que já estivemos aqui, embora não exatamente aqui”, escreveu o crítico de artes plásticas Holland Cotter no “New York Times”, num artigo com o título “O ‘boom’ acabou. Longa vida à arte!”. “Mas há razões para acreditarmos que a atual crise é de uma magnitude diferente: maior e mais profunda, um buraco negro global.”
O apoio cultural e o lado dos artistas
Serão os próximos anos um “buraco negro global”? Vamos voltar a considerar a cultura um luxo? Essas eram as questões de Jonathan Jones, crítico de artes plásticas do “Guardian”. “O que vai acabar, e muito rapidamente, é este sentimento de exuberância cultural que floresceu nos últimos 15 anos”, defendia. Será?
Há indicadores nesse sentido, tendo em conta as tendências dos últimos anos, diz o Lab for Culture da European Cultural Foundation, em Amesterdão, no seu relatório sobre a forma como a arte e a cultura vão responder à crise. Por exemplo: maior procura de bens e serviços culturais, mas menos apoios estatais, modelos competitivos de outras áreas ou de negócios sendo aplicados às artes. Partindo do pressuposto de que as crises podem trazer novas oportunidades, este think tank prevê o aparecimento de novas instituições, lideranças, modelos de apoio e formas de organização.
“São tempos difíceis e a cultura é a primeira a ser reduzida”, diz por telefone Yudhishthir Raj Isar, sociólogo e especialista em Economia da Cultura, co-autor, com Helmut K. Anheier, de “Cultures and Globalization: The Cultural Economy”. “É preciso distinguir entre os apoios e o lado artístico, as indústrias criativas que são negócios. Sabemos que na sociedade contemporânea a cultura se tornou essencial.”
Argumento, aliás, cada vez mais usado por vários países numa economia da cultura globalizada onde, como lembra James English, em “The Global Economy Prestige”, a decisão dos júris dos festivais de Cannes ou de Sundance “não apenas influencia a seleção de filmes em outros festivais de todo o mundo como pode alterar, em minutos”, as decisões do Oscar. Mas a mudança mais decisiva será nos apoios financeiros, que vão sofrer cortes e “uma grande pressão para que [os projetos subsidiados] sejam mais lucrativos”, lembra Isar.
Grandes projetos que, nos últimos anos, viveram um “boom” – espaços como a Ópera de Sydney, do arquiteto dinamarquês Jørn Utzon, ou museus, como o Guggenheim de Bilbau – “vão estar sob escrutínio”. “As pessoas vão querer saber por que é que este tipo de investimento é feito. É uma tendência: os grandes projetos vão ter que ser muito bem justificados.”
Paralelamente, Yudhishthir Raj Isar prevê que a profissionalização da cultura vai aumentar e que se vai passar a agir de forma mais empresarial. Algo, aliás, que os norte-americanos não percebem bem. “Para eles a cultura foi sempre negócio”, diz. Há americanos, como Bill Ivey, conselheiro do Presidente Obama, que defendem que os subsídios devem “estar onde a cultura acontece”, seja na televisão ou na Internet (perspectiva que representa uma mudança na política americana de apoio à cultura, sublinha o “The Art Newspaper”). “Na Europa, por causa do Estado de Bem Estar Social sempre consideramos que o valor artístico era superior ao bom negócio. Esta pressão vai encorajar as instituições não lucrativas a terem mais criatividade”, diz Isar.
O que não se aplica a todas as áreas: por exemplo, em espetáculos, os lugares são limitados, logo. Nesse caso, a pressão maior é para reduzir de custos, angariar patrocinadores, usar os espaços para exploração comercial.
A melhor resposta que estas instituições podem dar? “Serem inventivas, fazerem poupanças, venderem mais lugares, diversificarem a oferta. Há muitas situações em que o que é apresentado é elitista, ou em que o espaço não está bem aproveitado – por exemplo, quando têm espetáculos apenas em alguns dias da semana e estão fechados nos outros. Em Sydney, não havia tradição de ópera todos os dias – depois, até bingo se fez lá.”
Por mais ou menos criativas que as instituições sejam, a realidade vai ser esta: “o consumo artístico vai baixar”, sobretudo em áreas como a chamada alta cultura. Por exemplo, a ópera, que tem investimento e consumo caros. Mas áreas como a música pop não serão tão afetadas, prevê.
Samuel Jones responsável pela cultura do Demos, “think tank” britânico, concorda com Yudhishthir Raj Isar quanto aos apoios: diminuirão, mas talvez não este ano porque muitos contratos foram assinados antes. No entanto, é mais otimista. Defende que a cultura se destacou internacionalmente e que, com a Internet, tem-se tornado mais importante. “Há uma abrangência social e uma intensidade que nunca tivemos. As pessoas vão estar mais conscientes dos preços dos bilhetes, sim. Mas, por outro lado, a cultura tornou-se um bem de que precisam.”
No Ocidente, sobretudo nos EUA, vai assistir-se a uma discussão em que se defende cada vez mais que a cultura contribui para a economia, defende Yudhishthir Raj Isar. Na verdade, já se está assistindo. Nos EUA, grupos ligados às artes fizeram “lobby” para que a Administração Obama aprovasse um reforço de 50 milhões de dólares para o National Endowment for the Arts, instituição que apóia as artes – e conseguiram. O argumento? Que nos EUA há 100 mil grupos de arte não lucrativos que empregam seis milhões de pessoas e contribuem anualmente com 167 mil milhões de dólares para a economia.
O reforço é um dos sinais de que a política cultural regressa nos EUA no século XXI, ao fim de longos anos, com programas de estímulo econômico a iniciativas de diplomacia “soft”, defendia o “The Arts Newspaper”.
Nômades
A política cultural retorna nos EUA, retrai-se na Europa. E para o Oriente? Nas artes plásticas, por exemplo, na Ásia, o consumo “tem sido feito no contexto de espaços de prestígio, projetados por arquitetos-estrela – Xangai, Singapura, Pequim, Japão constroem centros para uma classe média, um novo público para tais lugares”. Mas também aqui o consumo vai diminuir, acredita Isar.
A crise vai, com certeza, ter impacto na circulação global de pessoas, lembra a curadora e historiadora da arte sul-africana Ruth Simbao. “Isto vai afetar a forma como as exposições são organizadas e programadas”. Em termos de arte africana, a situação será outra: “As exposições apresentadas nos EUA e na Europa vão assentar mais em artistas africanos da diáspora – isto já é uma moda e irá aumentar à medida que os apoios baixam. Os artistas africanos que vivem na Europa e EUA vão cada vez mais ser olhados como representantes africanos, o que é um problema”, conjectura.
A verdade é que “todos somos cada vez mais nômades”, diz Isabel Carlos, a nova diretora do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, que foi este ano curadora da Bienal de Sharjah, no Dubai. “Do meu conhecimento da diáspora do Médio Oriente, a maior parte dos artistas que têm possibilidade de viver do que fazem vivem nos EUA, em Londres [Inglaterra] e em Paris [França], saem dos seus países para terem uma carreira artística. Até podem continuar a viver no seu país, mas sempre com pontos de saída.”
O que a crise pode trazer de positivo é criar “cada vez mais parcerias entre as instituições, união de esforços”, considera Isabel Carlos. “É a continuação de uma globalização. Cada vez menos uma instituição isolada poderá produzir eventos culturais grandes. Há a possibilidade de cada vez mais ficarmos dependentes uns dos outros.” Para a curadora, isto é o que “a cultura em países pequenos poderá receber de bom desta crise” porque até os “grandes estão em crise” e precisam dos pequenos.
Por outro lado, acrescenta Ruth Simbao, “esta pode ser uma oportunidade para artistas e curadores africanos desenvolverem os pontos fortes locais e para se concentrarem no seu próprio caráter local, assim como na sua relação com os outros países africanos e com o ‘Sul global’”.
O que já aconteceu, conta, com a bienal da Cidade do Cabo, que começou em 2007. Inicialmente concebida como exposição internacional de arte africana contemporânea, teve que baixar o número de “grandes nomes”, focando-se no público local e na necessidade de criar uma arte pública sul-africana. “Vejo isto como uma oportunidade para os artistas locais, curadores locais e público local. Desde que os bons críticos continuem a falar e a divulgar projetos locais, estes podem competir em escala internacional sem serem proibitivos em termos de custo.”
Ruth Simbao acredita que, mais do que nunca, o aparecimento de excelentes pensadores e críticos de arte é crucial. “[Eles] podem relacionar os projetos produzidos localmente em uma escala global – essa ligação se faz através da comunicação digital, e com isso é possível partilhar com o mundo uma versão da arte africana social e economicamente muito mais diversa do que a que tem sido mostrada nas mega-exposições homogeneizadas do mundo rico.”
Experiência, comunidade e internet
Que a crise pode ser um cenário de oportunidade parece ser o tom geral. Também Samuel Jones defende a idéia de que em época de decadência a cultura floresce e a arte pode ser um espaço para as pessoas discutirem. Resumindo: são tempos difíceis, mas “muito interessantes”, que fazem com que as instituições procurem novas formas de comunicação com os seus públicos, criando espaços onde as pessoas não vão apenas fruir alguma coisa, mas podem também deixar a sua contribuição. No fundo, assiste-se a uma mudança de paradigma, com a óbvia mediação da internet, em que a voz de quem “consome” se torna tão relevante quanto a de quem produz. “Há museus em que não se fazem apenas ‘downloads’ de ‘podcasts’ com as explicações sobre as obras; fazem-se ‘uploads’ com os nossos olhares sobre elas. É preciso criar espaços com símbolos em que as pessoas se revejam. Não se trata apenas de informar as pessoas, trata-se de proporcionar contactos, relações de proximidade”, exemplifica.
O teatro é, por isso, um exemplo do que os espaços culturais podem vir a ser, pois sempre proporcionou a noção de comunidade ao ter, lado a lado, um grupo de pessoas que partilha a experiência de ver um espetáculo. Hoje, conta ele, companhias como a Royal Shakespeare Company não estão interessadas em apenas mostrar espetáculos, estão interessadas em que as pessoas participem, não apenas através das conversas a propósito dos espetáculos. “A forma como os ’sites’ na Internet estão sendo usados, abrindo-se aos comentários, a facilidade com que se cria uma conversa inter-geracional, abre uma nova era e uma oportunidade muito maior para as pessoas se expressarem. E quanto mais as pessoas se expressarem, mais essa vontade cresce.”
Mais arriscada é a experiência da Symphony Space, em Nova Iorque, que vai levar os telefones celulares para dentro do teatro: convida o público a votar no intervalo, através de SMS, nas personagens que devem casar em “Così Fan Tutte: Defining Women”, a partir de Mozart.
Holland Cotter, no “New York Times”, lembra que no século XXI o acesso digital ao conhecimento vai provocar uma mudança na forma de pensar e na produção da cultura visual. “O que é que os artistas vão fazer com isso? Vão as indústrias culturais agarrar-se ao formato analógico tradicional, para continuarem a insistir que o material, os objetos compráveis são a única forma legítima de arte – que é, na verdade, do que realmente se trata a revitalização da pintura dos últimos anos?”
A mudança não está para acontecer – já aconteceu, como mostra Don Tapscott no livro “Grown up Digital”, sobre a geração “pós-baby boomers” que se define por ter sido a primeira a crescer na era digital e que agora tem no máximo 32 anos e no mínimo 11. Porque em todo o mundo a geração digital, “a primeira verdadeiramente global”, “já está no mercado de trabalho, em todos os nichos da sociedade”. “Está a trazer ao mundo o seu músculo demográfico, a sua agilidade na mídia, o seu poder de compra e político, novos modelos de colaboração familiares e empresariais” – e muitos deles envolveram-se na política pela primeira vez com a campanha presidencial de Barack Obama.
Basicamente, o futuro vai depender desta geração. Segundo Tapscott, ela se define por oito características: os seus elementos “prezam a liberdade e a liberdade de escolha. Querem personalizar as coisas, torná-las deles. São colaboradores naturais, que gostam de uma conversa, não de conferências. Vão escrutiná-lo e à sua empresa. Insistem na integridade. Querem divertir-se, mesmo no trabalho e na escola. A velocidade é normal. A inovação faz parte da vida”.
Ao longo de todo o livro, destacam-se algumas idéias: organização em rede, participação-colaboração e experiência. Ou seja, em todas as esferas da sua vida, esta geração procura participar e ter experiências. Um exemplo, vindo do cinema: querem fazer críticas aos filmes, mas também contribuir para os conteúdos com os seus vídeos no YouTube.
A Internet poderá ajudar a dar a volta à crise ou agravá-la? “A ‘avant-garde’ floresceu numa época de recessão”, lembra Samuel Jones. “Não existia Internet. Isso é a grande diferença. Como seria se tivessem tanta liberdade de criar e consumir como hoje, se tivessem o YouTube? Este é um momento em que muitas certezas estão sendo postas em causa.”
Joana Gorjão Rodrigues (com alterações)
Acesse o texto original clicando aqui