El País – Madri

Nicholson Baker mostra em “Fumaça Humana” como a pulsão destrutiva da Segunda Guerra Mundial não pertencia a um só lado. Através de uma cuidadosa seleção de depoimentos, o autor presta sua homenagem ao pacifismo.

O bombardeio de populações civis, como na cidade de Hamburg, na Alemanha (foto), foi prática iniciada pelos Aliados (El país)

O bombardeio de populações civis, como na cidade de Hamburg, na Alemanha (foto), foi prática iniciada pelos Aliados (imagem: acervo El País)

Madri, Espanha – Desde que, em função da comemoração de meio século do fim da Segunda Guerra Mundial, a investigação historiográfica começou a confundir-se com o chamado “trabalho de memória”, a idéia de que o conflito mais devastador de todos os tempos se revestia com as características de uma luta maniqueísta, de um combate contra o Mal Absoluto, tem ganhado terreno.

Pouco a pouco, o questionamento acerca dos processos políticos, diplomáticos e econômicos que conduziram à guerra foi sendo abandonado em favor de uma reflexão de outra natureza, a meio caminho entre a filosofia e a teologia, e na qual o mais relevante é responder por que o ser humano foi capaz de tantas atrocidades como as que tiveram lugar entre 1939 e 1945. Poderia se tratar, sem dúvida, de uma discussão interessante, inclusive necessária, desde que não parta do equívoco que Nicholson Baker denuncia em seu ensaio Fumaça Humana: esse genérico ser humano, que se dedicou à destruição e ao assassinato em massa, não se encontrava unicamente nas fileiras do nazismo, senão também, em maior ou menor medida, em cada um dos grupos que se enfrentava.

O objetivo assumido de Baker é saber se a Segunda Guerra Mundial foi uma “guerra boa” e se, pesados todos os feitos, “ajudou alguém que necessitava de ajuda”. Talvez a sensação de que, ao empreender esta tarefa, se veria obrigado a nadar contra a corrente de um relato historiográfico que consagra a Churchill e a Roosevelt como heróis, tenha levado Baker a propor sua obra não como um volume da história corrente, senão como um texto coletivo, no qual são os protagonistas que tomam a palavra. O autor, por sua vez, se limitou a selecionar declarações, artigos na imprensa, cartas e trechos de diários em que os protagonistas se expressam em primeira pessoa, acrescentando de vez em quando breves comentários sobre o contexto e, sempre, a data dos documentos. O resultado é perturbador, como se, imediatamente, tivessem sido convocados à cena todos os silêncios, todos os equívocos imprescindíveis para que a história da Segunda Guerra possa seguir sendo contada como o é até hoje.

Baker não expõe uma tese, ele a ilustra. E para tanto concentra o olhar em dois dos maiores dramas do conflito: o bombardeio sistemático de populações civis e as iniciativas, ou melhor, a absoluta falta de iniciativas oficiais para salvar os judeus perseguidos pelo nazismo. Na verdade, a posição de Baker, a tese que ele se propõe a ilustrar em Fumaça Humana, só se encontra afixada na dedicatória com que conclui o breve epílogo de apenas duas páginas: “Dedico este livro”, escreve Baker, “à memória de Clarence Pickett e outros pacifistas estadunidenses e britânicos. Jamais eles receberam realmente o reconhecimento que merecem. Tentaram salvar aos refugiados judeus, alimentar a Europa, reconciliar os Estados Unidos e o Japão e impedir que estourasse a guerra. Fracassaram, mas tinham razão.”

Fumaça Humana estabelece um paralelismo implícito entre a guerra total que inspira a estratégia dos adversários na Segunda Guerra Mundial e os ataques aéreos nos territórios coloniais. É então que aparecem pela primeira vez protagonistas como o futuro chefe do Bombing Command, Arthur Harris, e o futuro primeiro-ministro britânico Winston Churchill. “Estou decididamente a favor de empregar gás tóxico contra tribos incivilizadas”, escreve Churcill ao chefe da Royal Air Force. A confiança do primeiro-ministro na eficácia do bombardeio contra civis, ainda que já não com gás tóxico – que havia sido proibido -, se manteve intacta ao iniciar a Segunda Guerra Mundial, só que agora Churchill acreditava que a chuva de fogo que se descarregava sobre as cidades da Alemanha transmitia a mensagem de que os alemães devem rebelar-se contra Hitler. Com o implícito e aterrador corolário de que, se não o fazem, se convertem em cúmplices do ditador.

Os textos que Baker reproduz lembram que o anti-semitismo não foi só um sentimento alimentado pelo nazismo, senão um clima geral. Quando ainda era um simples advogado, o presidente Roosevelt se dirigiu à junta de supervisores de Harvard propondo que se reduzisse o número de judeus na Universidade, até que eles representassem somente 15%. E Churchil, entretanto, publicava em fevereiro de 1920 um artigo na imprensa em que ele dizia que judeus “desleais”, como Marx, Trotski, Béla Kun, Rosa Luxemburgo e Emma Goldman haviam desenvolvido “uma conspiração mundial para a derrocada da civilização”. Acreditava, sem dúvida, na existência de “judeus leais”, a quem exigia, nesse mesmo artigo, que reivindicassem “a honra do nome de judeu”. Mas a obsessão anti-bolchevique o levou ao mal passado de elogiar, também na imprensa, a Mussolini, de quem se declarou “encantado pela postura amável e simples” e “por sua atitude serena e imparcial”. E inclusive a Hitler, de quem, deixando-se influenciar pelos comentários dos que o conheciam, estimou que era “um funcionário apto e competente, sereno e bem informado, de porte agradável e sorriso encantador”. Em contraposição, Trotski “era um judeu. Continuava sendo um judeu. Era impossível não levar em conta esse detalhe.”

É provável que aqueles que defendem a interpretação de que a Segunda Guerra Mundial foi uma “guerra boa”, como uma luta maniqueísta contra o Mal Absoluto, repreendam a Baker pela seleção de textos que ele incluiu em sua provocadora Fumaça Humana. Mas, ainda assim, esses textos seguem onde estão, e obrigam, pelo menos, a repensar a relação entre a história e o tão difundido “trabalho de memória”.

José María Ridao

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The Zimbabwe Independent - Zimbábue

Nos últimos dois anos, vários países não-africanos – China, Índia, Coréia do Sul, Grã Bretanha e Estados do Golfo Árabe – tomaram posse de grandes trechos de terra agricultável na África, por aluguel ou compra, para produzir alimentos ou biocombustíveis para uso próprio. Críticos os chamam de “neo-colonialistas”, mas eles não terão tanto sucesso quanto os antigos.

 

 

 

possui 2,8 milhões de hectares no COngo para plantar dendê, usado na fabricação de biocombustíveis (foto: oneVillage Initiative/flicker) 

possui 2,8 milhões de hectares no COngo para plantar dendê, usado na fabricação de biocombustíveis (foto: oneVillage Initiative/flicker)

 

 

Londres, Inglaterra - A escala da apropriação é realmente impressionante. No Sudão, a Coréia do Sul adquiriu 690 mil hectares de terra para plantar trigo. Os Emirados Árabes Unidos, que já têm 30 mil hectares no Sudão, estão investindo em outros 378 mil hectares para o plantio de milho, alfafa, trigo, batatas e feijão.

Na Tanzânia, a Arábia Saudita está buscando 500 mil hectares.

Propriedades ainda maiores estão sendo alugadas para a produção de biocombustíveis. A China adquiriu 2,8 milhões de hectares na República Democrática do Congo para criar a maior plantação mundial de dendezeiros (substituindo a densa vegetação e a inútil vida animal por apertadas linhas de pequenas palmeiras), e está negociando mais 2 milhões de hectares na Zâmbia para plantar jatropha [http://pt.wikipedia.org/wiki/Jatropha]. Empresas da Grã Bretanha também adquiriram grandes trechos de terra em Angola, Etiópia, Moçambique, Nigéria e Tanzânia.

Raramente ocorrem protestos das populações locais. Uma exceção marcante é Madagascar, onde o anúncio de um contrato de 99 anos para alugar 1,3 milhões de hectares às plantações de milho da corporação Daewoo, da Coréia do Sul, ajudou a provocar a recente revolução. “A terra de Madagascar não está a venda nem será alugada”, disse o novo líder, Andry Rajoelina, que cancelou o acordo.

Depois da revolução, descobriu-se que outros 465 mil hectares de terra em Madagascar haviam sido alugados para uma empresa indiana, Varun Internacional, para plantar arroz que seria consumido na Índia. O acordo também está sendo cancelado pelo novo governo – mas nos demais lugares, a aquisição de grandes trechos de terra africana por governos e companhias da Ásia e da Europa continua quase sem oposição.

Por que a África? Porque este é o último lugar onde existem grandes áreas de boa terra agriculturável que ainda não estão completamente ocupadas pelos fazendeiros locais. Há geralmente camponeses extraindo sua subsistência da terra, mas eles são poucos e pobres, e podem ser facilmente comprados ou expulsos.

Para os estrangeiros, a atração é o lucro, a segurança no fornecimento de alimentos, ou ambos.

Para aqueles que estão investindo em biocombustíveis, há lucros reais a serem obtidos, ao menos a curto prazo. Mas para os que buscam segurança no fornecimento de alimentos, os novos recursos alimentares africanos provavelmente se tornarão indisponíveis quando mais se necessitá-los.

Foi a explosão no preço dos grãos em 2007-2008 que levou muitos países altamente dependentes da importação de alimentos a iniciar a aquisição de terras agrícolas africanas. A razão imediata para que o preço do trigo, arroz e milho dobrasse ou triplicasse foi um pequeno número de colheitas ruins localizadas e o desvio de grandes quantidades do milho norte-americano para a produção de biocombustíveis. Mas a razão subjacente era de que o fornecimento global está crescendo menos do que a demanda.

Desde 1945 a população do mundo triplicou, bem como a produção de alimentos, crescendo a uma média de 3% por ano ao longo das décadas de 1950, 1960, 1970 e 1980, e boa parte dos anos 1990. Durante a maior parte da última década, porém, a produção de grãos se manteve essencialmente estável, enquanto a população global continuou crescendo.

Por volta de 2006, pouco antes dos preços dispararem, a reserva mundial de grãos (a quantidade que é mantida nos silos de estocagem a cada ano, imediatamente antes das novas colheitas) havia encolhido de 116 dias de alimentos para todo o mundo (em 1999) para apenas 57 dias. As colheitas relativamente boas do último ano trouxeram os preços de volta para baixo, mas a perspectiva para este ano é pessimista, com secas em cerca de metade das principais áreas de plantação de grãos do mundo.

Então, que tal não precisar competir por estoques escassos de grãos a preços inflados no mercado internacional quando os preços dispararem? Que tal depender, ao invés disso, de sua própria reserva de alimentos, mesmo se ela não esteja localizada em seu próprio país? É por isso que os envolvidos nesta corrida para comprar terras na África são principalmente os países que altamente dependentes da importação de alimentos – mas eles esquecem duas dificuldades.

A primeira é que a soberania sempre se impõe sobre as obrigações contratuais. Se os países africanos que estão alugando suas terras enfrentarem dificuldades em alimentar suas próprias populações, o que deverá ocorrer se os preços mundiais de grãos subirem acentuadamente, o primeiro recurso ao qual eles se voltarão são as plantações estrangeiras em seus territórios. Governos que não podem alimentar suas populações correm o risco de serem derrubados, e irão quebrar contratos sem a menos hesitação.

A segunda é que, quando a situação realmente se complicar – quando as mudanças climáticas começarem a incomodar, a produção de grãos estiver caindo em todos os lugares e o que restar do mercado internacional de grãos não for suficiente para responder à demanda, qualquer que seja o preço -, a África não é o melhor lugar para extrair reservas emergenciais de grãos.

Quase todo o continente se encontra na faixa tropical ou subtropical, que é onde a produção de alimentos será atingida de forma mais severa.

Os “neo-colonialistas” irão ganhar algum dinheiro a curto prazo, e podem mesmo desfrutar de uma falsa sensação de segurança por um breve período, mas eles não vão recuperar muito de seus investimentos a longo prazo. O problema é que tampouco os africanos vão se beneficiar disso, embora alguns de seus líderes certamente se sairão bem.

Gwynne Dyer

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The Guardian – Londres

A indústria do petróleo, gás e carvão aumentou o seu orçamento para lobby em 50% nos Estados Unidos, com agentes importantes gastando 44,5 milhões de dólares nos primeiros três meses deste ano em um esforço intenso para cortar o suporte ao plano de Barrack Obama para construir uma economia baseada em energias limpas.

Plano de Obama pode ser frustrado pela pressão de empresas do setor energético (foto: Charles Ommanne/Getty Images/The Guardian)

Plano de Obama pode ser frustrado pela pressão de empresas do setor energético (foto: Charles Ommanne/Getty Images/The Guardian)

Washington, EUA – A contra-campanha conta com centenas de milhões de dólares e envolve grupos de fachadas da indústria, firmas de lobby, propagandas de televisão, mídia impressa e rádio, além de doações para membros-chave do Congresso. Sua intenção é diluir ou acabar com os planos dos líderes do Partido Democrático de aprovar a legislação dita “Pagar por poluir” (Cap and trade, em inglês), que colocaria barreiras para as emissões de gases estufa.

Uma derrota desta emenda teria conseqüências globais. A comunidade internacional está dependendo dos Estados Unidos, como o maior poluidor per capita mundial, para estabelecer um plano firme para abandonar os combustíveis poluentes nos meses que antecedem as negociações cruciais da ONU, que ocorrerão em dezembro deste ano. Sem esta ação, as chances de se chegar a um acordo que os cientistas dizem ser vital para limitar as mudanças climáticas ficam muito reduzidas.

Os altos valores em jogo intensificaram a luta pelo controle sobre o futuro da energia nos Estados Unidos. “Existe um número imenso de pessoas que podem ganhar e perder muito, e eles estão agindo de acordo com isso”, disse Evan Tracey, fundador do Grupo de Análise da Mídia de Campanha (CMAG, ou Campaign Media Analysis Group, em inglês), que rastreou a proliferação de publicidades sobre mudança climática.

Mas trata-se de uma competição desigual. Organizações ambientais e da sociedade civil, assim como as principais empresas que apóiam a legislação da mudança climática, dizem estar sendo derrotados por gastos vastamente superiores da parte dos investidores em combustíveis fósseis.

“Esses caras estão gastando um bilhão de dólares este ano para convencer os norte-americanos de que são limpos, verdes, carinhosos e calorosos”, diz Bob Perkowitz, fundador da Firma Eco-Americana de Relações Públicas. Perkowitz foi responsável por informar a Casa Branca ontem [11 de maio] sobre uma nova estratégia de divulgação ambiental. “Os ambientalistas estão passando sua mensagem, mas estão sendo superados por gastos em uma relação de 10 para um”, declarou. Em publicidade, a proporção é de cerca de três para um. A indústria do petróleo e do carvão gastou 71,1 milhões de dólares em publicidade entre os dias 1º de janeiro e 27 de abril, de acordo com os dados da CMAG vistos pelo jornal The Guardian. Grupos ambientais, liderados pela Aliança de Al Gore para a Proteção do Clima, o Fundo de Defesa do Ambiente e o Sierra Club, gastaram 28,6 milhões no mesmo período, disse Tracey.

Apesar da sua importância global, o destino da proposta de emenda constitucional “Pagar por poluir” agora está nas mãos de apenas uma dúzia de democratas, que ainda precisam dar seu apoio à transformação energética de Obama. A liderança democrática não pode considerar o seu apoio como certo. Sete desses democratas fundamentais receberam donativos de campanha de mais de 100 mil dólares da indústria do gás e do petróleo, produtores de carvão e companhias elétricas durante as eleições do ano passado, de acordo com uma análise fornecida ao The Guardian pelo Centro para Política Responsiva. Outros dois receberam mais de 90 mil dólares no ano passado.

Ambientalistas dizem que estes democratas, que determinam o equilíbrio de poder sobre o comitê, representam uma ameaça muito maior para as chances de aprovar a legislação da mudança climática do que uma votação geral no Congresso. “Se eles conseguirem passar a emenda pelo subcomitê, o que vai emergir daí será parte da legislação [definitiva]”, disse Tony Kreindler, do Fundo de Defesa Ambiental. “Então este é o marco inicial para a votação.”

Suzanne Goldenberg

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La Jornada – Ciudad de México

Em abril, as autoridades do estado do Rio de Janeiro decidiram iniciar a construção de um muro ecológico de contenção para impedir a expansão das favelas sobre os morros da cidade maravilhosa. Desde então, o debate pega fogo entre representantes políticos, sociais e comunidades de moradores. Estariam as autoridades fechando os olhos para as conseqüências sociais desta obra?

Governo cerca população em favelas do Rio (fonte:AP/ publicada no IG)

Governo cerca população em favelas do Rio (fonte:AP/ publicada no IG)

Rio de Janeiro, Brasil – Em meio à polêmica, continuam as obras do primeiro muro através do qual o governo do Estado brasileiro do Rio de Janeiro quer evitar a expansão das favelas sobre os restos da Mata Atlântica. Trata-se de uma parede impenetrável, mas que fortalece várias fissuras sociais, segundo seus críticos.

Chegar até a muralha não é uma tarefa fácil para quem não tem o treinamento físico dos habitantes das favelas, acostumados a subir a descer várias vezes por dia os becos talhados nas escarpadas ladeiras dos morros e colinas cariocas. Tampouco é fácil para quem não conhece, como eles, os labirintos muitas vezes escuros e sem ventilação que ligam as casas destes bairros amontoados.

Mas é difícil perder-se mesmo não conhecendo o terreno. O muro ecológico se converteu em uma forma de destino jornalístico obrigatório no Rio desde que foi iniciada sua construção no fim de março. Muro de Berlim ou da Palestina, como o classificou em seu blogue o escritor português José Saramago, ou muro entre os Estados Unidos e o México, um dos tantos apelidos que recebeu esta parede que se estenderá em diversos trechos por 11 km, segundo o plano do governo, que planeja chegar ao final deste ano tendo cercado 19 favelas cariocas.

Ecossistema perdeu 93% de sua superfície

O diretor da Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro, Ícaro Moreno, disse à IPS que se trata de uma contenção ambiental. O objetivo é evitar mais desmatamento na já devastada Mata Atlântica, um ecossistema que ocupava boa parte da costa brasileira sobre o oceano e que já perdeu 93% de sua superfície.

“O limite era virtual e agora é físico. Como nossa casa quando compramos um terreno e o delimitamos com muros para indicar ‘esta aqui é minha parte’. O que o Estado faz é dizer: se você atravessá-lo ou quebra-lo, estará infringindo o patrimônio público”, ilustra o funcionário.

Mas Nandson Ribeiro, um técnico em informática que vive na [vila de] Santa Marta, vê o muro como uma “jaula”. Lá em baixo do morro, “a polícia vigia constantemente” desde que o governo estatal de Sérgio Cabral ocupou a favela com repressão e obras sociais, para erradicar a violência do narcotráfico. “Do outro lado está o muro. E mais adiante, a selva”, disse Ribeiro, traçando os novos limites geográficos de sua comunidade. Quando se chega ao último confim de Santa Marta, o muro visto de perto não supera nem reduz as expectativas. É simplesmente uma parede de três metros de altura entre o bosque e as casas de tijolos sem reboque, as mais privilegiadas, ou de palafita, que se sobrepõem perigosamente sobre o terreno inclinado e irregular.

Esta é precisamente, segundo o governo, outra das razões da construção do muro, indicou a Secretaria de Obras Públicas do governo estatal. Trata-se de evitar catástrofes ambientais, porque o desmatamento e a construção irregular de habitações nas ladeiras agravaram nos últimos anos as inundações e deslizamentos de terra e lodo, muitas vezes com mortes nos chuvosos verões cariocas. Mas a obra, que custará cerca de 40 milhões de reais e será construída com aço e concreto, também é um muro de significados.

Para muita gente das favelas e analistas sociais, ele acentuará a idéia de segregação entre pobres e ricos. “Nada disso”, reage indignado Moreno. A população “pode entrar e sair livremente. O muro é uma forma de proteção para a floresta”, insiste. Os dados alarmantes sobre o desmatamento da Mata Atlântica contribuíram ao surgimento da idéia do muro.

Um estudo do Instituto Pereira Passos, da prefeitura da cidade, revelou que metade das 750 favelas da urbe, habitadas por 1.5 milhões de cariocas, duplicaram seu tamanho entre 1999 e 2004 [dados publicados pelo jornal brasileiro Estado de S. Paulo, contudo, mostram que nenhuma das favelas cercadas se encontra no grupo de rápida expansão – algumas delas, inclusive, estão diminuindo de tamanho].

Sem espaço livre para se expandir, em uma cidade quase cercada por selvagens colinas e pelo mar, as favelas se estenderam sobre as ladeiras arborizadas dos morros, muitas vezes com construções sem fiscalização técnica e com dois ou mais pisos.

A Rocinha, a maior favela da cidade, habitada por cerca de 200 mil pessoas e onde será construído o maior trecho do muro, é um dos exemplos mais claros. As construções só cessaram ante um limite natural, como um penhasco.

No Botafogo, bairro da zona sul, a favela Tabajara atravessou uma colina antes arborizada e cresceu até os limites do cemitério municipal. Outras avançam como um faixa de cimento e tijolos sobre as áreas de proteção ambiental.

Moreno reconhece que o ideal seria a fiscalização das construções, mas isto também não é fácil, diz, pois no silencio da noite e sob as árvores começa o transporte dos materiais, e no dia seguinte surge do nada uma nova casa. Sucessivos governos tentaram reflorestar as ladeiras incluindo a população das favelas nesta tarefa. Mas todas as medidas bateram de frente com uma realidade tão dura quando o concreto desde muro: o grave déficit habitacional do país, de quase oito milhões de habitações – segundo as estimativas mais conservadoras, as oficiais. Entra as situações mais graves estão os estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, cujas ricas capitais são as maiores receptoras de imigrantes pobres do interior deste país, cuja população supera os 190 milhões de habitantes.

Alguns dias antes de iniciar a construção do muro, o governador Cabral, aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva – com quem desenvolve planos conjuntos de pacificação e obras sociais e de geração de renda nas favelas –, anunciou um ambicioso programa habitacional que incluirá seu estado. O pacote habitacional, com um investimento de 70 bilhões de reais, tem como objetivo reduzir em 14% o déficit habitacional do país, construindo um milhão de habitações até 2010.

A esses milhões devem somar-se os do muro, segundo Dos Santos, “que será somente uma contenção e Deus sabe até onde”.

Para o líder comunitário, o único muro que terá efeito é o “social”, construído através do investimento de mais fundos em planos habitacionais, de cultura, de trabalho – “para tirar os jovens do ócio” –, de esportes – “para tirá-los das drogas” –, de educação e de creches.

Apenas uma fissura na parede, para visualizar o outro lado: o futuro.

IPS

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Portugal - Em épocas de crise, o melhor mesmo é ir às compras na própria casa. Desenterrem-se leituras eternamente adiadas, leia-se finalmente o “Ulisses” de James Joyce que anda por ali há séculos. Os livros podem ser caros, mas ler continua não sendo tanto assim. Até porque um livro pode sempre passar por muitas mãos. E há as bibliotecas, a “forma de entretenimento mais barata de todas”, lembra John Carey, professor de Inglês em Oxford, no jornal “Guardian”. A partir desta lógica, a leitura – não o mercado dos livros – será uma das atividades que menos sofrerá com a crise econômica mundial. Mas nem tudo é lógico e nem tudo se pode prever. O podemos esperar, então, dos próximos anos?

Enquanto a economia afunda, o mundo busca alternativas para salvar o mercado das artes. (David Lachapelle)

Enquanto a economia afunda, o mundo busca alternativas para salvar o mercado das artes. (David Lachapelle)

Já temos algumas luzes. Diariamente encontramos notícias que apontam para o mesmo sentido: cortes em todas as áreas da cultura. Grandes fundações na Europa reduzem orçamentos em 20 a 25 por cento; sólidos festivais de teatro (como o de Edimburgo) enfrentam problemas financeiros; museus, como o Getty Museum de Los Angeles, deixam de ser “luxuosos”; leilões de arte entram em baixa, depois de anos incólumes às flutuações do mercado; lojas de música, como a Virgin, fecham as últimas lojas nos EUA…

“As pessoas com memória das recessões dos anos 1970 e 1980 sabem que já estivemos aqui, embora não exatamente aqui”, escreveu o crítico de artes plásticas Holland Cotter no “New York Times”, num artigo com o título “O ‘boom’ acabou. Longa vida à arte!”. “Mas há razões para acreditarmos que a atual crise é de uma magnitude diferente: maior e mais profunda, um buraco negro global.”

O apoio cultural e o lado dos artistas

Serão os próximos anos um “buraco negro global”? Vamos voltar a considerar a cultura um luxo? Essas eram as questões de Jonathan Jones, crítico de artes plásticas do “Guardian”. “O que vai acabar, e muito rapidamente, é este sentimento de exuberância cultural que floresceu nos últimos 15 anos”, defendia. Será?

Há indicadores nesse sentido, tendo em conta as tendências dos últimos anos, diz o Lab for Culture da European Cultural Foundation, em Amesterdão, no seu relatório sobre a forma como a arte e a cultura vão responder à crise. Por exemplo: maior procura de bens e serviços culturais, mas menos apoios estatais, modelos competitivos de outras áreas ou de negócios sendo aplicados às artes. Partindo do pressuposto de que as crises podem trazer novas oportunidades, este think tank prevê o aparecimento de novas instituições, lideranças, modelos de apoio e formas de organização.

“São tempos difíceis e a cultura é a primeira a ser reduzida”, diz por telefone Yudhishthir Raj Isar, sociólogo e especialista em Economia da Cultura, co-autor, com Helmut K. Anheier, de “Cultures and Globalization: The Cultural Economy”. “É preciso distinguir entre os apoios e o lado artístico, as indústrias criativas que são negócios. Sabemos que na sociedade contemporânea a cultura se tornou essencial.”

Argumento, aliás, cada vez mais usado por vários países numa economia da cultura globalizada onde, como lembra James English, em “The Global Economy Prestige”, a decisão dos júris dos festivais de Cannes ou de Sundance “não apenas influencia a seleção de filmes em outros festivais de todo o mundo como pode alterar, em minutos”, as decisões do Oscar. Mas a mudança mais decisiva será nos apoios financeiros, que vão sofrer cortes e “uma grande pressão para que [os projetos subsidiados] sejam mais lucrativos”, lembra Isar.

Grandes projetos que, nos últimos anos, viveram um “boom” – espaços como a Ópera de Sydney, do arquiteto dinamarquês Jørn Utzon, ou museus, como o Guggenheim de Bilbau – “vão estar sob escrutínio”. “As pessoas vão querer saber por que é que este tipo de investimento é feito. É uma tendência: os grandes projetos vão ter que ser muito bem justificados.”

Paralelamente, Yudhishthir Raj Isar prevê que a profissionalização da cultura vai aumentar e que se vai passar a agir de forma mais empresarial. Algo, aliás, que os norte-americanos não percebem bem. “Para eles a cultura foi sempre negócio”, diz. Há americanos, como Bill Ivey, conselheiro do Presidente Obama, que defendem que os subsídios devem “estar onde a cultura acontece”, seja na televisão ou na Internet (perspectiva que representa uma mudança na política americana de apoio à cultura, sublinha o “The Art Newspaper”). “Na Europa, por causa do Estado de Bem Estar Social sempre consideramos que o valor artístico era superior ao bom negócio. Esta pressão vai encorajar as instituições não lucrativas a terem mais criatividade”, diz Isar.

O que não se aplica a todas as áreas: por exemplo, em espetáculos, os lugares são limitados, logo. Nesse caso, a pressão maior é para reduzir de custos, angariar patrocinadores, usar os espaços para exploração comercial.

A melhor resposta que estas instituições podem dar? “Serem inventivas, fazerem poupanças, venderem mais lugares, diversificarem a oferta. Há muitas situações em que o que é apresentado é elitista, ou em que o espaço não está bem aproveitado – por exemplo, quando têm espetáculos apenas em alguns dias da semana e estão fechados nos outros. Em Sydney, não havia tradição de ópera todos os dias – depois, até bingo se fez lá.”

Por mais ou menos criativas que as instituições sejam, a realidade vai ser esta: “o consumo artístico vai baixar”, sobretudo em áreas como a chamada alta cultura. Por exemplo, a ópera, que tem investimento e consumo caros. Mas áreas como a música pop não serão tão afetadas, prevê.

Samuel Jones responsável pela cultura do Demos, “think tank” britânico, concorda com Yudhishthir Raj Isar quanto aos apoios: diminuirão, mas talvez não este ano porque muitos contratos foram assinados antes. No entanto, é mais otimista. Defende que a cultura se destacou internacionalmente e que, com a Internet, tem-se tornado mais importante. “Há uma abrangência social e uma intensidade que nunca tivemos. As pessoas vão estar mais conscientes dos preços dos bilhetes, sim. Mas, por outro lado, a cultura tornou-se um bem de que precisam.”

No Ocidente, sobretudo nos EUA, vai assistir-se a uma discussão em que se defende cada vez mais que a cultura contribui para a economia, defende Yudhishthir Raj Isar. Na verdade, já se está assistindo. Nos EUA, grupos ligados às artes fizeram “lobby” para que a Administração Obama aprovasse um reforço de 50 milhões de dólares para o National Endowment for the Arts, instituição que apóia as artes – e conseguiram. O argumento? Que nos EUA há 100 mil grupos de arte não lucrativos que empregam seis milhões de pessoas e contribuem anualmente com 167 mil milhões de dólares para a economia.

O reforço é um dos sinais de que a política cultural regressa nos EUA no século XXI, ao fim de longos anos, com programas de estímulo econômico a iniciativas de diplomacia “soft”, defendia o “The Arts Newspaper”.

Nômades

A política cultural retorna nos EUA, retrai-se na Europa. E para o Oriente? Nas artes plásticas, por exemplo, na Ásia, o consumo “tem sido feito no contexto de espaços de prestígio, projetados por arquitetos-estrela – Xangai, Singapura, Pequim, Japão constroem centros para uma classe média, um novo público para tais lugares”. Mas também aqui o consumo vai diminuir, acredita Isar.

A crise vai, com certeza, ter impacto na circulação global de pessoas, lembra a curadora e historiadora da arte sul-africana Ruth Simbao. “Isto vai afetar a forma como as exposições são organizadas e programadas”. Em termos de arte africana, a situação será outra: “As exposições apresentadas nos EUA e na Europa vão assentar mais em artistas africanos da diáspora – isto já é uma moda e irá aumentar à medida que os apoios baixam. Os artistas africanos que vivem na Europa e EUA vão cada vez mais ser olhados como representantes africanos, o que é um problema”, conjectura.

A verdade é que “todos somos cada vez mais nômades”, diz Isabel Carlos, a nova diretora do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, que foi este ano curadora da Bienal de Sharjah, no Dubai. “Do meu conhecimento da diáspora do Médio Oriente, a maior parte dos artistas que têm possibilidade de viver do que fazem vivem nos EUA, em Londres [Inglaterra] e em Paris [França], saem dos seus países para terem uma carreira artística. Até podem continuar a viver no seu país, mas sempre com pontos de saída.”

O que a crise pode trazer de positivo é criar “cada vez mais parcerias entre as instituições, união de esforços”, considera Isabel Carlos. “É a continuação de uma globalização. Cada vez menos uma instituição isolada poderá produzir eventos culturais grandes. Há a possibilidade de cada vez mais ficarmos dependentes uns dos outros.” Para a curadora, isto é o que “a cultura em países pequenos poderá receber de bom desta crise” porque até os “grandes estão em crise” e precisam dos pequenos.

Por outro lado, acrescenta Ruth Simbao, “esta pode ser uma oportunidade para artistas e curadores africanos desenvolverem os pontos fortes locais e para se concentrarem no seu próprio caráter local, assim como na sua relação com os outros países africanos e com o ‘Sul global’”.

O que já aconteceu, conta, com a bienal da Cidade do Cabo, que começou em 2007. Inicialmente concebida como exposição internacional de arte africana contemporânea, teve que baixar o número de “grandes nomes”, focando-se no público local e na necessidade de criar uma arte pública sul-africana. “Vejo isto como uma oportunidade para os artistas locais, curadores locais e público local. Desde que os bons críticos continuem a falar e a divulgar projetos locais, estes podem competir em escala internacional sem serem proibitivos em termos de custo.”

Ruth Simbao acredita que, mais do que nunca, o aparecimento de excelentes pensadores e críticos de arte é crucial. “[Eles] podem relacionar os projetos produzidos localmente em uma escala global – essa ligação se faz através da comunicação digital, e com isso é possível partilhar com o mundo uma versão da arte africana social e economicamente muito mais diversa do que a que tem sido mostrada nas mega-exposições homogeneizadas do mundo rico.”

Experiência, comunidade e internet

Que a crise pode ser um cenário de oportunidade parece ser o tom geral. Também Samuel Jones defende a idéia de que em época de decadência a cultura floresce e a arte pode ser um espaço para as pessoas discutirem. Resumindo: são tempos difíceis, mas “muito interessantes”, que fazem com que as instituições procurem novas formas de comunicação com os seus públicos, criando espaços onde as pessoas não vão apenas fruir alguma coisa, mas podem também deixar a sua contribuição. No fundo, assiste-se a uma mudança de paradigma, com a óbvia mediação da internet, em que a voz de quem “consome” se torna tão relevante quanto a de quem produz. “Há museus em que não se fazem apenas ‘downloads’ de ‘podcasts’ com as explicações sobre as obras; fazem-se ‘uploads’ com os nossos olhares sobre elas. É preciso criar espaços com símbolos em que as pessoas se revejam. Não se trata apenas de informar as pessoas, trata-se de proporcionar contactos, relações de proximidade”, exemplifica.

O teatro é, por isso, um exemplo do que os espaços culturais podem vir a ser, pois sempre proporcionou a noção de comunidade ao ter, lado a lado, um grupo de pessoas que partilha a experiência de ver um espetáculo. Hoje, conta ele, companhias como a Royal Shakespeare Company não estão interessadas em apenas mostrar espetáculos, estão interessadas em que as pessoas participem, não apenas através das conversas a propósito dos espetáculos. “A forma como os ’sites’ na Internet estão sendo usados, abrindo-se aos comentários, a facilidade com que se cria uma conversa inter-geracional, abre uma nova era e uma oportunidade muito maior para as pessoas se expressarem. E quanto mais as pessoas se expressarem, mais essa vontade cresce.”

Mais arriscada é a experiência da Symphony Space, em Nova Iorque, que vai levar os telefones celulares para dentro do teatro: convida o público a votar no intervalo, através de SMS, nas personagens que devem casar em “Così Fan Tutte: Defining Women”, a partir de Mozart.

Holland Cotter, no “New York Times”, lembra que no século XXI o acesso digital ao conhecimento vai provocar uma mudança na forma de pensar e na produção da cultura visual. “O que é que os artistas vão fazer com isso? Vão as indústrias culturais agarrar-se ao formato analógico tradicional, para continuarem a insistir que o material, os objetos compráveis são a única forma legítima de arte – que é, na verdade, do que realmente se trata a revitalização da pintura dos últimos anos?”

A mudança não está para acontecer – já aconteceu, como mostra Don Tapscott no livro “Grown up Digital”, sobre a geração “pós-baby boomers” que se define por ter sido a primeira a crescer na era digital e que agora tem no máximo 32 anos e no mínimo 11. Porque em todo o mundo a geração digital, “a primeira verdadeiramente global”, “já está no mercado de trabalho, em todos os nichos da sociedade”. “Está a trazer ao mundo o seu músculo demográfico, a sua agilidade na mídia, o seu poder de compra e político, novos modelos de colaboração familiares e empresariais” – e muitos deles envolveram-se na política pela primeira vez com a campanha presidencial de Barack Obama.

Basicamente, o futuro vai depender desta geração. Segundo Tapscott, ela se define por oito características: os seus elementos “prezam a liberdade e a liberdade de escolha. Querem personalizar as coisas, torná-las deles. São colaboradores naturais, que gostam de uma conversa, não de conferências. Vão escrutiná-lo e à sua empresa. Insistem na integridade. Querem divertir-se, mesmo no trabalho e na escola. A velocidade é normal. A inovação faz parte da vida”.

Ao longo de todo o livro, destacam-se algumas idéias: organização em rede, participação-colaboração e experiência. Ou seja, em todas as esferas da sua vida, esta geração procura participar e ter experiências. Um exemplo, vindo do cinema: querem fazer críticas aos filmes, mas também contribuir para os conteúdos com os seus vídeos no YouTube.

A Internet poderá ajudar a dar a volta à crise ou agravá-la? “A ‘avant-garde’ floresceu numa época de recessão”, lembra Samuel Jones. “Não existia Internet. Isso é a grande diferença. Como seria se tivessem tanta liberdade de criar e consumir como hoje, se tivessem o YouTube? Este é um momento em que muitas certezas estão sendo postas em causa.”

Joana Gorjão Rodrigues (com alterações)

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Ad Busters –Vancouver

Tirúa, Chile – A pequena cidade de Tirúa, na pitoresca região chilena de Arauco, abriga aproximadamente 10 mil habitantes, uma considerável comunidade Mapuche e um tanque de guerra. Décadas após a ditadura de Pinochet, a vida nesta idílica cidade costeira deveria ser tranqüila. Mas esta é uma zona de conflito.

Os índios Mapuche desta região recebem pouca cobertura da mídia nacional chilena e a imprensa de orientação direitista os retrata muitas vezes como violentos delinqüentes. Histórias sobre alcoolismo, crimes graves e suposto radicalismo obscurecem a dura tragédia da comunidade Mapuche. Mesmo aqueles que ousam falar sobre a estigmatização dessa raça frequentemente falham ao confrontar a lógica que está por trás do atual conflito com as forças policiais e não raro omitem por completo a perseguição da comunidade Mapuche.

A terra é a raiz do conflito. Os Mapuche têm uma história de lutas por seu território, primeiramente contra os conquistadores espanhóis e depois contra o governo de Augusto Pinochet. Seu mais novo inimigo surgiu em uma forma mais comercial: companhias florestais explorando as terras Mapuche para alimentar a crescente indústria chilena de madeira. Don Ignácio Maríl, um ancião Mapuche e carismático representante da comunidade, viveu aproximadamente 80 anos de disputas territoriais, vendo-se privado de suas terras. Após a campanha de Salvador Allende defendendo que “a terra é para aqueles que trabalham nela”, grande parte das terras de Maríl foi recuperada. Depois da chegada de Pinochet, entretanto, as disputas recomeçaram e os 1.170 hectares que pertenciam a esta comunidade foram reduzidos a apenas 383 hectares.

Atualmente a principal luta dos Mapuche por seu direito a terra é travada contra Mininco Forestry. Mininco é hoje proprietária de grande parte das terras situadas nos arredores de Tirúa, deixando aos Mapuches uma quantidade mínima de terras para sustentar seu modo de vida agrícola.

“Somos quatro irmãos e temos apenas nove hectares de terra,” comenta um membro da comunidade. “Nesta terra temos de plantar alimentos para nós mesmos e produzir pasto para nossos animais… não é suficiente.” Maríl explica que muitos jovens Mapuches têm de deixar seus lares para procurar emprego nas grandes cidades, “abandonando suas famílias e sua comunidade.” Os que restam têm de lutar por seu território.

Essa forte relação com a terra está no coração da identidade Mapuche. A própria palavra “Mapuche” significa “povo da terra” na língua autóctone Mapudungun. “Mapuches sem terra não são Mapuches,” declara Maríl.

Conflito escalonado

A situação dos Mapuches se agravou em abril, quando a Mininco instalou uma base com aproximadamente 50 oficiais da policia chilena e do batalhão de operações especiais (GOPE) na propriedade de Labranza, próxima às residências da comunidade. O Comissário chileno para os Direitos Humanos, Sergio Aguiló, afirma que a “militarização” da área se deve à necessidade de proteger as terras e a companhia de roubos e ataques por parte do povo Mapuche.

A base é uma visão apavorante. Uma vista aérea mostra dois grandes prédios e uma assustadora torre no meio de uma vasta área de floresta queimada. O caminho até a base é perigoso e lamacento, e a unidade está protegida por uma dupla cerca de arame farpado. Uma entrada principal dá acesso restrito aos casebres dos policiais.

Os oficiais do batalhão especial fazem patrulhas vestindo capacetes e coletes a prova de bala e carregam diversas armas de fogo. Durante uma visita surpresa à base, o prefeito Adolfo Millabur, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Sergio Aguiló, e o deputado Manuel Monsalve descobriram que a base também está equipada de um tanque de guerra.

“Saber que há um tanque em minha cidade me deixa indignado,” disse Millabur, que é descendente de Mapuche. “Isso me chocou muito, pois não é algo comum no Chile atualmente. Eles fazem esse tipo de coisas em ditaduras. Mas, pelo fato de os Mapuches serem índios, a ‘democracia’ permite isso. Eles não o fariam na grande aglomeração de Santiago, seria um escândalo!”

Aguiló também manifestou seu ultraje: “É uma provocação inaceitável. Essa presença praticamente militar, com tanques, um ônibus da polícia, capacetes, submetralhadoras, rifles, é algo que eu nunca vi nos três mandatos que exerci como parlamentar e como presidente da Comissão de Direitos Humanos. A situação é intolerável em um Estado de Direito”.

No entanto, a presença de um inimigo comum uniformizado fortaleceu o senso de solidariedade dentro da comunidade. Os membros da prefeitura se mantêm informados sobre os movimentos de polícia fora da base, particularmente sobre os oficiais que se patrulham a cidade vestidos de civis.

Millabur acredita que deve melhorar as condições de sua comunidade exercendo pressão política e pública até que essa base seja removida. Como ele mesmo diz: “Sou Mapuche e defenderei as causas da minha cidade.”

Natalie Hart

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Natalie Hart divide seu tempo entre o Chile e o Oriente Médio. Ela foi editora do jornal Valparaíso Times, escreveu para o Santiago Times e para as revistas Women’s International Perspective e Revolver. Estuda atualmente em Damasco, Síria.

The Nation – Nova Iorque

Quando algumas nações detêm poder sobre a água de outras, as conseqüências podem ser desastrosas. Elemento essencial à vida, esse precioso líquido já é alvo de cobiça em certas regiões do planeta. À medida que a população mundial cresce e a água se torna escassa, os conflitos aumentam. A discussão internacional sobre os recursos hídricos, que muitas vezes não respeitam as fronteiras dos países, suscita este debate sobre o seu aproveitamento.

Água poderá ser o recurso natural mais precioso a partir de 2025. (foto: reuters/the nation)

Água poderá ser o recurso natural mais precioso a partir de 2025. (foto: reuters/the nation)

Nova Iorque, EUA - Já foi dito que a água é o “ouro azul”, e que as próximas guerras por recursos naturais não serão travadas pelo petróleo, mas pela água. Maude Barlow, conselheira sênior para as Nações Unidas sobre temas ligados à água, escreveu que a forma como abordaremos esse recurso “vai, em grande parte, determinar se o nosso futuro será pacífico ou perigoso”.

A organização britânica sem fins lucrativos International Alert publicou um relatório identificando 46 países onde a água e os problemas climáticos poderiam dar início a violentos conflitos a partir de 2025, pressionando o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, a afirmar: “As conseqüências para a humanidade são graves. A escassez de água, que ameaça os ganhos econômicos e sociais, é um combustível potente para guerras e conflitos.”

Não há dúvida de que as reservas mundiais de água potável estão ameaçadas. Um bilhão de pessoas não tem acesso à água potável hoje, e esse número deverá chegar a 2,8 bilhões em apenas duas décadas. Resultarão esses desafios em uma “guerra pela água”? Provavelmente não, dizem os especialistas. Mas os conflitos estão se acumulando e a batalha pelo controle das decrescentes reservas de água potável já começou. Gigantes internacionais – como os EUA, Israel e a China – já deram seus primeiros passos.

Controle chinês sobre as fontes asiáticas

Cinqüenta anos desde que o Dalai Lama fugiu do Tibete e 60 depois que os chineses invadiram o país, milhares de pessoas deram seu apoio ao movimento pela libertação do Tibete. Porém, muitos ficariam surpresos em saber o que está em jogo além da liberdade religiosa e política. O planalto tibetano é a fonte de uma parte importante da água potável na Ásia. Os principais rios da região nascem das montanhas geladas para irrigar as fazendas, casas e fábricas da China, Índia, Paquistão, Nepal, Butão, Bangladesh, Mianmar, Tailândia, Vietnam, Laos e Camboja. Incrivelmente, os países afetados contêm 85% da população da Ásia e quase metade da população de todo o globo.

Degelo nas montanhas do Himalaia leva água para países que somam 85% da população asiática. (Ryszard Pawłowski)

Degelo nas montanhas do Himalaia leva água para países que somam 85% da população asiática. (Ryszard Pawłowski)

Não apenas a China detém um poder incrível ao controlar o fornecimento de água de tantas pessoas, mas os rios que se originam no planalto estão cada vez mais ameaçados por níveis recorde de poluição, causados por atividades industriais, desflorestamento, mineração e manufaturas. E isto não é sequer a pior parte do problema: conforme Keith Schneider e H. C. Pope escreveram para a ONG Circle of Blue [que poderia ser livremente traduzido como "Círculo de água"], um clima cada vez mais quente está fazendo as geleiras da região retroceder mais rápido do que em qualquer região do planeta.

“A água emergiu como um tema chave, que poderá determinar se a Ásia se dirige rumo à cooperação mutuamente benéfica ou à competição deletéria entre estados”, escreveu Brahma Chellaney para o Japan Times.
Então, qualquer ação realizada pela China no Tibete afetará, em última instância, todos os países rio abaixo. “Há muito pouca discussão sobre a natureza internacional dos recursos hídricos”, disse Peter Gleick, presidente do Instituto Pacífico. “Eu não sei como fazer os chineses entrarem na mesma discussão que o resto do mundo, mas é necessário que haja mais negociação internacional e diplomacia para se evitar atritos, tensões e principalmente conflitos sobre os recursos hídricos.”

As previsões sobre mudança climática são preocupantes, e elas se somam ao fato de que a situação atual já não é boa na China. A industrialização deixou a água escassa ou poluída demais para beber em certas regiões. Para piorar a situação, o país foi recentemente atingido por secas. Em fevereiro, o Guardian reportou que 3.7 milhões de pessoas e 1.85 milhões de animais estavam sem água.

Muitos temem que a água do Tibete será a “solução” para os problemas da China, pois o país planeja instalar múltiplos sistemas de canais e represas que desviarão as águas provenientes do degelo das geleiras himalaias.

A água e o conflito árabe-insraelense

A China não é o único país ameaçado pela seca. No Oriente Médio, um dos locais mais quentes e secos do mundo, a água tem sido uma fonte de discórdia tanto quanto um elemento de negociação. “A disputa árabe-israelense é um conflito pela terra – e talvez, tão crucialmente quanto isso, pela água que flui através dessa terra”, escreveu Martin Asser para a BBC News.

Junto ao rio Jordão, atualmente 90% desviado por Israel, Síria e Jordânia, os países estão de fato enfrentando escassez. Mas não está exatamente claro o que isso significa para diferentes grupos de pessoas, como os israelenses e palestinos. “Eu penso que a escassez é um cenário político no qual as pessoas se inserem”, disse Samer Alatout, especialista em problemas de água entre israelenses e palestinos e professor do departamento de sociologia rural da Universidade de Wisconsin (EUA). “Se você tem uma idéia geral do que é a escassez, como, por exemplo, 500 metros cúbicos de água por ano por pessoa, isso não quer realmente dizer nada. Você não está considerando quem consome quanta água e quando.”

A exploração de 80% dos poços em território palestino está proibida. (Ranbar) 

A exploração de 80% dos poços em território palestino está proibida. (Ranbar)

Enquanto o consumo varia entre israelenses, eles têm acesso contínuo à água. Os palestinos, por outro lado, estão sob a vontade de Israel. Na Cisjordânia, os palestinos têm acesso a apenas 20% da água do aqüífero situado sob seu território, pois está proibida a exploração de poços. O consumo per capita de água está na média de 60 litros por dia, abaixo mesmo do padrão de 100 litros por dia da Organização Mundial da Saúde. Para os israelenses, este número se aproxima dos 300 litros por dia.

Em Gaza, o aqüífero está tão poluído e sobrecarregado de poços que a água não pode ser bebida. Dos 4 mil poços existentes em Gaza, somente cerca de 10% estaria de acordo com os padrões da Organização Mundial da Saúde. Cerca de 40% das casas em Gaza não tem água corrente. E mesmo para aquelas que têm, diz Alatout, o serviço de água é intermitente. “Durante o verão, eles podem ter seu acesso restrito a um dia por semana, durante algumas horas”, explica. “Eles enchem banheiras e recipientes. E compram água de caminhões pipa independentes, que interferem no suprimento de água. Boa parte do esforço e de seu tempo são gastos na tentativa de conseguir água para suas casas.”

E, como na China, as coisas provavelmente vão se deteriorar ainda mais nas próximas décadas. “Para os palestinos, a mudança climática agravará ainda mais o conflito com Israel”, escreveu o jornalista investigativo Andy Rowell. “O acesso à água já é uma das principais causas para a disputa. Quando a água ficar mais escassa, isso se somará ao conflito. Aquele que controlar o acesso aos recursos hídricos controlará o poder.”

Agora, este poder está claramente nas mãos de Israel. Por esta razão, Alatout não vê uma guerra pela água no futuro dessa região. “Os israelenses não vão lançar uma guerra porque eles já estão no poder. Os palestinos não podem de fato iniciar uma guerra, nem os jordanianos; não é factível.”

Isso não significa, diz ele, que os conflitos não vão se expandir ou se intensificar. A água é, afinal, uma necessidade vital. Mas as decisões sobre a água precisarão fazer parte de um plano mais amplo que leve em conta as raízes políticas, culturais e sociológicas do conflito, diz Alatout. Para os palestinos, este é um tema ligado à sua própria soberania. “Se Israel continuar negando aos palestinos o direito humano básico de acesso à água limpa, eles negarão à Palestina o seu direito de ser uma nação”, escreveu Rowell. “Isso significa que não haverá paz.”

Estados Unidos pode restringir água do México

A idéia de uma “guerra pela água” provavelmente invoca lugares como o Oriente Médio e a África. Mas nos últimos anos tem havido tensão real entre os Estados Unidos e o México.

A razão da disputa é o Rio Colorado, que corre por sete estados dos EUA antes de banhar o México e desembocar no Golfo da Califórnia. Suas águas alcançam 30 milhões de pessoas e quase 1 milhão de hectares de plantações. Através de canais e aquedutos, ele ajuda a abastecer cidades secas como Las Vegas, Phoenix e Los Angeles [todas nos Estados Unidos].

Sob o Tratado Mexicano da Água, de 1944, os Estados Unidos concordaram em garantir aos seus vizinhos do Sul 1.9 trilhões de litros de água por ano. Contudo, por muitas décadas, os habitantes do sul da fronteira seguidamente receberam mais do que o acordado pelo tratado, na medida em que o fluxo da água excedia o que os fazendeiros podiam usar.

Mas cerca de uma década de seca pressionou os estados ao redor do Rio Colorado a encontrar formas de extrair mais água do rio. Eles desenvolveram um plano para prevenir a infiltração de água e também para construir um reservatório logo ao norte da fronteira para captar esses fluxos “excessivos”.

Os administradores da água vão orgulhosamente declarar que estão prevenindo o “desperdício” e aumentando a eficiência. Mas, no deserto, a água nunca é desperdiçada. Ao invés disso, a água que se infiltra no subterrâneo flui para baixo do Vale Mexicano ao sul da fronteira, irrigando os campos dos fazendeiros locais. A área também representa um habitat crucial para milhões de pássaros migratórios.

O braço-forte dos Estados Unidos frente ao México assemelha-se à posição da China na Ásia, assim como à relação de Israel com a Palestina, onde o país que detém os recursos claramente detém a força política e há pouca chance de uma alternativa para os que estão sem água. Pode-se esperar que os Estados Unidos e o México possam resolver essa questão de maneira mais equitativa no futuro, mas ao redor do mundo os conflitos podem evoluir num rumo diferente conforme a água ficar mais escassa. “O que é mais provável é que a crise da água continue a piorar”, diz Aaron Wolf, professor de Geografia na Universidade do Estado de Oregon [Eua] e especialista em disputas transnacionais pela água. “O resultado será mais pessoas sofrendo e morrendo e danos cada vez maiores para o ecossistema.” As pessoas nos países ricos serão mais capazes de se adaptar, diz ele. As dos países mais pobres não terão a mesma sorte.

“O verdadeiro problema é a crise, e não o perigo de um conflito”, diz Wolf. “Entre 2,5 e 5 milhões de pessoas morrem todo ano por causa da falta de acesso a condições sanitárias básicas e a um suprimento seguro e estável de água. Possíveis guerras à luz da crise atual são uma distração perigosa.” A verdadeira ameaça, alerta, é não agirmos agora para responder à crise que está diante de nós.

Tara Lohan (excertos)

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Der Spiegel - Berlim

Uma das pinturas mais famosas do Muro de Berlim, mostrando o líder soviético Leonid Brezhnev beijando seu colega da Alemanha Oriental Erich Honecker, foi destruída pelas autoridades. O artista está furioso, mas diz que vai pintar uma nova imagem.

 

Imagens no Muro faziam parte da paisagem de Berlim. (foto: reuters/spiegel)

Imagens no Muro faziam parte da paisagem de Berlim. (foto: reuters/spiegel)

Berlim, Alemanha – Foi uma imagem que deu a volta ao mundo. O líder soviético Leonid Brezhnev se inclinando para beijar seu colega da Alemanha Oriental, Erich Honecker, uma pintura memorável que cobria uma das partes restantes do Muro de Berlim. Em pouco tempo ela se tornou uma das imagens mais famosas da Galeria do Lado Oriental de Berlim – o Muro recoberto de murais que é agora o mais longo trecho remanescente da antiga fronteira da Guerra Fria.

Então, sem aviso, a imagem foi removida, deixando para trás um velho bloco de concreto cinzento – e um artista irado. “Minha pintura está arruinada!”, enraiveceu-se o artista russo de 48 anos Dmitri Vrubel.

Ele pintou a imagem em 1990, apenas meses após o Muro ter sido oficialmente declarado aberto. Junto com Vrubel, 117 artistas de 21 países pintaram a seção de 1.316 metros do Muro que corre paralelamente ao rio Spree. Em 28 de setembro de 1990, dias depois que a Galeria do Lado Oriental foi aberta, a República Democrática Alemã [porção de Berlim que estava sob o domínio da União Soviética] deixou de existir. As telas de concreto ao ar livre se tornaram uma atração turística, e todo o trecho foi protegido por uma ordem de preservação em 1993.

Mas o tempo deixou suas marcas. Estando ao lado de uma das principais rotas de trânsito do sudeste da cidade, o Muro está exposto às intempéries e à poluição. Os turistas acrescentaram seus próprios grafites, ou levaram um pedaço do concreto histórico como lembrança. Agora a tinta está se apagando. Em 1990, os desenhos de Brezhnev e Honecker tinham as bochechas rosadas, mas com o tempo eles ficaram pálidos e gastos.

“Nós trabalhávamos somente com tintas baratas naquele tempo”, disse o artista Kani Alavi, que também trabalhou na Galeria do Lado Oriental. Hoje ele é o líder do grupo dos artistas da Galeria que supervisiona a preservação das pinturas. No último mês de outubro ele teve sucesso em arrecadar verbas da loteria alemã e outros fundos públicos para recuperar a antiga glória da galeria.

Foi mais uma reforma completa do que uma renovação. “Tudo tinha que ser apagado”, disse Alavi. Para preservar o Muro, todas as obras de arte restantes serão removidas usando vapor. O concreto subjacente será então restaurado e, finalmente, os pintores originais devem repintar suas seções do muro. “Dessa vez nós usaremos tintas especiais”, disse Alavi, “para que elas durem mais”. Um verniz especial será aplicado para facilitar a remoção de qualquer grafite.

Dimitri Vrubel, que nunca concordou em ter a sua obra destruída, não está feliz com essa explicação. “Eu não tenho problemas com uma restauração”, contou ele ao jornal Spiegel Online. “Mas agora será uma nova imagem. Eu não posso simplesmente repetir minha primeira pintura.”

O pintor russo ficou sabendo da renovação através de uma reportagem em um jornal. Depois de entrar em contato com funcionários de Berlim, ele recebeu um contrato, dando-lhe direito a 3 mil euros. “Por que 3 mil euros? Por que não 30 mil, ou 300?”, perguntou Vrubel, que viu sua imagem ser usada para fins comerciais, adornando canecas, cartões postais e pratos em Berlim. “Ela está sendo vendida, mas eu nunca vi um centavo de lucros.”

Alavi, do grupo de artistas engajado com a reforma do Muro, confirma que os problemas persistem até hoje em relação ao marketing da Galeria do Lado Oriental. “Sob a lei alemã, a arte que é criada em espaços públicos não conta com proteção de direitos autorais.” Mas ele diz que seu grupo pode ir aos tribunais para aumentar a percepção pública sobre esse assunto.

Atração para turistas

Christian Tänzler, da Mesa Diretora para Turistas de Berlim, descreve a Galeria do Lado Oriental como um imã para viajantes. “Todos os visitante que vêm a Berlim querem ver o Muro, e a Galeria do Lado Oriental é o maior trecho remanescente”, disse ele ao Spiegel Online. Tänzler está contente que a maior galeria ao ar livre do mundo está finalmente sendo restaurada. Agora muitas das pinturas são internacionalmente famosas, incluindo o “Beijo dos Irmãos” de Vrubel e a pintura de Birgit Kinder de um carro Trabant, um ícone da antiga Alemanha Oriental, chocando-se contra a parede.

Alavi e o grupo de artistas gostariam de construir um centro de informações para a Galeria do Lado Oriental. Mais do que apenas um museu, dizem eles, ela seria também um centro de ensino – um lugar onde artistas internacionais podem se encontrar e compartilhar histórias de países divididos e muros, reais e imaginários.

Enquanto isso, a área ao redor da Galeria do Lado Oriental está para ser mega-valorizada. Mais adiante na mesma rua, um teatro gigantesco foi construído. E planos já foram traçados para dar à área destruída uma estética nova, transformando-a em um investimento residencial e comercial amplamente divulgado pela mídia. Esta é outra razão para investir na restauração do Muro. Afinal, certamente uma barreira de concreto velha não tem lugar em uma paisagem urbana moderna.

Espera-se que a renovação da Galeria do Lado Oriental esteja completa em 9 de novembro de 2009, dia que marca o vigésimo aniversário da queda do Muro de Berlim. Dmitri Vrubel, enquanto isso, disse que não quer atrapalhar a comemoração. Ao invés disso, ele está considerando pintar uma nova cena de beijo. Obama e Putin, talvez? “Não, isso seria contemporâneo demais”, disse ele. Ao contrário, a cena de Brezhnev e Honecker continuará sendo o tema, mas ele dará uma perspectiva diferente. “Isso não era, na verdade, para ser uma imagem política”, disse Vrubel. “É sobre amor.”

Malte Göbel

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Time Magazine – Nova Iorque
Situação inesperada faz de militares e ambientalistas aliados inesperados (foto: Don Farrall/Getty)

Situação inesperada faz de militares e ambientalistas aliados no combate ao aquecimento global (foto: Don Farrall/Getty)

Londres, Inglaterra – Em seu discurso, ao deixar a presidência em 1961, Dwight Eisenhower [presidente dos EUA na época] advertiu sobre um crescente “complexo industrial-militar” que poderia atuar como uma mão invisível, empurrando a humanidade rumo à sua destruição. Mas e se o complexo industrial-militar acabasse salvando a humanidade da crise climática, que pode ser considerada sua maior ameaça?

Em 26 de fevereiro, o MOD [Ministério da Defesa, na sigla em inglês] da Grã-Bretanha publicou um “Plano de Tecnologia para a Defesa” que fornecia detalhes a respeito das necessidades militares de longo prazo dos britânicos. O documento foi projetado para guiar fabricantes do setor de armamentos e defesa sobre onde investir suas verbas para pesquisa e desenvolvimento. Ele destacava cinco “visões de capacitação”, as quais esperava que “estimulassem novas tecnologias”. Uma dessas visões era “reduzir a dependência em relação aos combustíveis fósseis”.

A idéia está ganhando força nos departamentos de defesa de muitas nações ocidentais. Frustrados pela vulnerabilidade das longas linhas de abastecimento de petróleo em conflitos recentes – e conscientes de que em uma guerra global de proporções apocalípticas os países que controlam o grosso do petróleo e do gás mundial podem não ser aliados – os militares ocidentais estão em busca de fontes de combustíveis alternativas para seus tanques, veículos, aviões e navios.

Como Paul Stein, diretor do MOD para Ciência e Tecnologia, contou à revista TIME no lançamento do plano britânico: “Nós e nossos aliados precisamos de alternativas para os combustíveis fósseis. Este documento dá aos nossos parceiros na indústria a confiança de que estamos falando sério sobre encontrar essas soluções. A mensagem é clara: nós consideraremos qualquer coisa, desde que funcione e nos afaste dos combustíveis fósseis.”

De acordo com os ambientalistas, o compromisso militar com as tecnologias verdes é significativo não porque exércitos “verdes” ajudariam a reduzir as emissões globais de gases do efeito estufa; os militares britânicos, por exemplo, produzem apenas 1% do dióxido de carbono da Grã-Bretanha, e isto é padrão para os militares de países desenvolvidos. Ao invés disso, a vantagem poderia vir através da utilização de seus pesquisadores brilhantes e bem financiados, que trabalham diretamente para os militares (o corpo de engenheiros do Exército dos Estados Unidos tem, sozinho, 283 pós-doutorados), ou para os seus numerosos fornecedores. Se o complexo industrial-militar pode desenvolver um míssil de longo alcance que viaja pelo espaço e é guiado pela luz das estrelas, ele tem boas chances de desenvolver novas tecnologias que poderiam ajudar governos a atingirem os objetivos de redução na emissão de poluentes sem fazer cortes draconianos no uso de energia. Ao menos essa é a esperança.

Deron Lovaas, diretor de Políticas para o Conselho de Defesa dos Recursos Naturais [Natural Resources Defense Council, em inglês], um grupo ambientalista localizado nos Estados Unidos, diz que os pesquisadores militares têm um histórico em dar origem a tecnologias transformadoras que fluem para dentro da sociedade, incluindo a DARPAnet, o sistema de comunicações da Agência de Projetos de Pesquisa Avançados para a Defesa (DARPA, em inglês) que com o tempo evoluiu para a Internet. “O que é animador aqui são os potenciais efeitos secundários”, diz ele. “Os militares podem investir muito mais do que o setor privado. Eles podem investir bilhões em combustíveis alternativos. E eles podem correr riscos maiores.”

Embora a Grã-Bretanha tenha uma indústria de defesa e armas forte, ambientalistas dizem que uma revolução em combustíveis alternativos e renováveis requer o apoio dos militares norte-americanos, cujos orçamentos de aquisição e de pesquisa e desenvolvimento fazem os de outras nações parecerem ridículos (ano passado, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos gastou 79 bilhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento interno; as Forças Armadas britânicas gastaram 4 bilhões). Enquanto o Departamento de Defesa [DOD, no idioma original] ainda não formalizou as energias verdes nos seus documentos estratégicos, ele patrocinou numerosos estudos que o levam a se afastar daquilo que é apelidado de POL – Petróleo, Óleos e Lubrificantes – em benefício de combustíveis alternativos.

Tal idéia foi passada adiante para a indústria e os institutos de pesquisa. Uma recente diretriz de aquisição do DOD requer que os militares considerem o “gasto com combustíveis” das novas tecnologias, enquanto um escritório especial dentro do DOD monitora as pesquisas com energias alternativas nas universidades e institutos norte-americanos com a intenção de premiar os melhores com financiamentos. O DARPA recebeu recentemente 100 milhões de dólares para um projeto de pesquisa com combustíveis alternativos.

A tecnologia verde vai ganhar uma porção crescente do orçamento de aquisição dos Estados Unidos nos próximos anos, de acordo com o porta-voz do DOD, Chris Isleib. “Isso é mais do que uma alta prioridade para nós”, diz ele. “No Iraque, uma porcentagem muito alta dos nossos comboios era à base de combustíveis fósseis. Nossa dependência de combustível nesses comboios estava colocando a vida dos nossos soldados em risco. Nos demos conta de que a necessidade de combustíveis alternativos era urgente. Nós precisávamos nos mobilizar.”

Esse tipo de conversa faz dos ambientalistas aliados inesperados, que já estão antecipando as inovações que podem ser geradas a partir dos bilhões de dólares destinados às energias verdes no pacote de estimulo à economia de Obama. Afinal, se existe uma instituição federal para a qual a indústria dá mais atenção do que para a Casa Branca, é o Pentágono. De fato, o impacto da decisão dos militares britânicos em fevereiro foi imediatamente reconhecível: um dia depois da publicação do “Plano de Tecnologia para a Defesa” o renomado instituto de pesquisa independente RUSI [Instituto de Serviços do Reino Unido, na sigla em inglês] realizou uma conferência chamada “Energias Alternativas e Sustentabilidade para os Militares” em Londres, capital da Inglaterra, financiada pelo gigante da área de defesa BAE Systems. Representantes da Lockheed Martin, BAE Systems e de diversas instituições acadêmicas participaram. “Olha, nós podemos ser agnósticos quanto às políticas de mudança climática”, disse Stein, o diretor de ciências do MOD, antes de começar o encontro. “Mas há razões operacionais pelas quais precisamos dessas novas tecnologias. E nós precisamos das pessoas mais brilhantes nos ajudando a resolver o problema.” Sobre este último ponto, um ambientalista durão – ou mesmo Dwight D. Eisenhower – não poderia ter dito melhor.

Eben Harrel

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Vários bancos foram acusados de financiar a ditadura militar (Montagem: Página 12)

Vários bancos foram acusados de financiar a ditadura militar (Montagem: Página 12)

Página 12 – Buenos Aires

Filhos de presos e desaparecidos em La Plata [capital da província argentina de Buenos Aires] processarão os bancos que financiaram a ditadura, cuja maquinaria de morte teria parado sem essa ajuda. Os bancos contavam com informações precisas sobre o que estava acontecendo, e por isso deviam ter imaginado o dano eventual que causariam.

Leandro Manuel Ibáñez e María Elena Perdighe apresentaram uma queixa judicial contra os bancos estrangeiros que financiaram a ditadura militar que seqüestrou e fez desaparecer os seus pais, em 1976 e 1977, na cidade de La Plata. Um escritório portenho de advogados com apoio de especialistas da Universidade de Nova Iorque invocará normas e antecedentes internacionais e norte-americanos, com a jurisprudência do Tribunal de Nuremberg. Este tribunal condenou empresários alemães que venderam o gás letal usado no campo de concentração de Auschwitz, empregaram mão de obra escrava e doaram dinheiro às SS [Schutzstaffel, organização paramilitar ligada ao Partido Nazista alemão]. Os advogados também contarão com a jurisprudência da Convenção contra o Genocídio, que contempla sanções não apenas para quem comete um crime, mas também para seus cúmplices. “Quero saber quem dava dinheiro à junta militar que governava um país quebrado, mas que podia pagar o salário dos assassinos dos meus pais e comprar as máquinas para torturá-los”, explica Maria, de espantosa semelhança com sua mãe, segundo afirmam aqueles que a conheceram.

Cumplicidade corporativa

Segundo o Tribunal de Nuremberg, o responsável por um plano criminoso necessita, para executá-lo, da “cooperação de políticos, militares, diplomatas e empresários. Não se pode considerá-los inocentes se sabiam o que estavam fazendo”. Os bancos que outorgaram fundos à ditadura argentina deveriam reparar os danos pessoais sofridos, dada sua “responsabilidade por cumplicidade corporativa”. Uma fonte valiosa de informações sobre o tema foi uma investigação acadêmica em curso pela diretora do programa de Direitos Humanos e Justiça Global da Faculdade de Direito da Universidade de Nova Iorque, Verle Opgenhaffen, e do jurista argentino Juan Pablo Bohoslavsky, da mesma universidade, onde o estudo será apresentado no dia 14 de abril. A pesquisa assinala que em 1976 a dívida pública externa da Argentina era de 6.648 milhões de dólares, e em 1983 chegou a 31.709 milhões. Dois terços do total (20.658,7 milhões) correspondiam a créditos bancários, sem contar outros 5.441 milhões em títulos, que presumivelmente também estavam sob domínio dos bancos. Em meados da década de 1970 os bancos internacionais haviam acumulado uma enorme massa de petrodólares e pressionaram os países de duvidosa capacidade econômica para que tomassem empréstimos, que em muitos casos foram usados para reprimir suas populações, como no caso argentino. A queda da demanda externa e da atividade industrial provocadas pela política da ditadura militar fez com que o nível de atividade de 1982 fosse 1,3% menor do que o de 1975. Entre 1976 e 1980, o déficit fiscal foi de 7,4% do PIB [Produto Interno Bruto] e, entre 1981 e 1983, de 14,6%. Com o enfoque monetarista daqueles anos e a tablita [que fixava mensalmente o câmbio do peso frente ao dólar] de Martinez de Hoz [político, economista, advogado e professor universitário argentino, que foi Ministro da Economia da ditadura militar entre 1976 e 1981], a entrada de verbas públicas foi menor que os gastos.

No entanto, o orçamento militar cresceu mais que o dobro entre 1975 e 1983, em termos absolutos (de 1.278 a 2.500 milhões de dólares) e em porcentagem do Produto Interno Bruto (de 2,04% para 4,39%). Quando os bancos exigiram o acerto de contas, deram início à crise da dívida e a uma forte recessão, que por sua vez precipitou a transição democrática. O trabalho dos acadêmicos reproduz uma afirmação do Congresso estadunidense ao analisar o papel do banco Riggs em relação à ditadura chilena de Pinochet: “O financiamento é a chave do terrorismo, da corrupção e de outros atos delitivos”. Como exemplo dessa afirmação podemos lembrar os dirigentes brancos sul-africanos [do apartheid, regime de segregação racial entre brancos e negros que feria os direitos humanos]. Durante décadas eles resistiram ao boicote comercial [levantado para tentar extinguir o apartheid]. A chave foi o financiamento externo, sem o qual o aparato estatal, e inclusive a repressão, teriam sido paralisados. 

Dano eventual

Os artigos publicados na imprensa internacional, bem como os informes públicos do governo dos Estados Unidos e dos organismos de direitos humanos, não deixavam dúvidas sobre a gravidade da situação na Argentina ditatorial, razão pela qual os bancos não podem alegar ignorância sobre os crimes de lesa humanidade que ajudaram a financiar. O fato mais significativo foi a negativa do governo norte-americano do presidente James Carter em subsidiar ajuda financeira e militar à Argentina devido às violações aos direitos humanos e às normas fundamentais do Direito Internacional, e seu voto contra os créditos multilaterais solicitados pela ditadura ao Banco Mundial e ao Banco Interamericano de Desenvolvimento. Em março de 1977 o governo explicou esta política ao Congresso: “os Estados Unidos deveriam usar sua voz e seu voto em todos os bancos de desenvolvimento dos quais faziam parte para defender os direitos humanos”, disse a subsecretária de direitos humanos, Patrícia Derian. Como conseqüência, em 1978 também a OPIC (Overseas Private Investment Corporation) [agência ligada ao governo norte-americano que fornece serviços controle de riscos para investimentos no exterior] decidiu não assegurar empresas que quisessem investir na Argentina, devido às sérias violações aos direitos humanos. A Comissão Sul-Africana de Verdade e Reconciliação não incluiu as empresas que sustentaram o regime criminoso do apartheid. Porém, há casos recentes tramitando em tribunais dos Estados Unidos que desenvolvem esse conceito de responsabilidade corporativa. Esses processos foram apresentados contra:

- A empresa bananeira Chiquita, que contratou paramilitares colombianos para eliminar os sindicalistas de suas plantações; bancos e empresas de diversos países que ajudaram a Alemanha nazista a prolongar a guerra, que não devolveram os depósitos das vítimas do regime ou usaram mão de obra escrava;

- O banco Paris Paribas, por prover fundos ao regime de Saddam Hussein em violação ao programa Petróleo Por Alimentos, das Nações Unidas;

- Yahoo, por entregar informações e arquivos ao governo chinês que permitiram identificar e torturar um ativista dos direitos humanos;

- Nestlé, por comprar cacau de plantações que usam mão de obra infantil;

- Unocal, por participar da construção de um oleoduto e contratar forças de segurança responsáveis por trabalho forçado, assassinatos e estupros em Burma;

- O banco Barclays e outras companhias que forneceram créditos, transportes e outros serviços essenciais para a implementação do apartheid na África do Sul.

Um precedente

Os mecanismos da Justiça Transnacional demoraram para levar em conta os fatores econômicos que permitem a um regime reprimir sua população, como é avaliado no “limitado alcance do informe da CONADEP [Comissão Nacional dos Desaparecidos] e nos mandatos de quase todas as Comissões de Verdade posteriores. O fato de que nesse momento se desenvolvam julgamentos daqueles crimes oferece uma oportunidade única para que a Argentina estabeleça um precedente, demonstrando a necessidade de se considerar as cumplicidades civis para determinar a verdade sobre o funcionamento de um determinado regime”, diz o trabalho de Opgenhaffen e Bohoslavsky.

Na Argentina os indultos de 1989 e 1990 [que beneficiaram autoridades da ditadura acusados de crimes de lesa humanidade] foram compensados com a edição de várias leis que estabeleceram o pagamento de reparações às vítimas do terrorismo de Estado e seus herdeiros, somando o montante de 225 mil dólares para cada caso. Outro trabalho acadêmico realizado em 2005 por Christina Marie Wilson na Faculdade de Direito da Universidade Jesuíta Fordham, também em Nova Iorque, analisa o destino dessas reparações em meio ao caos econômico que viveu a Argentina. O pagamento prometido atrasou, e em 1997 foi determinado por decreto que as indenizações seriam liquidadas com Títulos de Consolidação da Dívida Pública. Em 2002 seu valor foi calculado. Os títulos que foram emitidos como pagamento entraram no processo de renegociação da dívida externa, em que, como os demais títulos, sofreram uma depreciação de dois terços de seu valor. O tratamento que receberam foi o mesmo que o dos demais proprietários de títulos argentinos, apesar de que nesse caso não se tratava de investidores que corriam um risco, mas de vítimas da ditadura que receberam esses títulos porque o Estado não pode ou não quis pagar-lhes em moeda corrente.

Porém, essas reparações, cuja desvalorização o Estado explicou por suas dificuldades econômicas, não servem para a cobrança junto aos bancos, que não têm as limitações do Estado. Segundo Opgenhaffen e Bohoslavsky, trata-se de obter “respostas mais completas em termos de processos, reparações e outros mecanismos de responsabilidade”, o que atuaria como dissuasivo para o comportamento empresarial no futuro. Também “combateria a noção de que foram apenas alguns generais que desenvolveram sozinhos uma campanha assassina, e lançaria importantes perguntas sobre o papel que tiveram os atores financeiros privados para ajudar e prolongar a ditadura”.

Horacio Verbitsky

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